Trump não prioriza os EUA, mas a si próprio – 22/01/2026 – Thomas L. Friedman

Homem de terno azul e gravata vermelha fala em púlpito com microfone, segurando pasta preta. Fundo exibe logo do Fórum Econômico Mundial e texto

Nunca acreditei nas teorias da conspiração sobre Donald Trump e a Rússia. Nunca achei que ele fosse um agente russo ou que Vladimir Putin tivesse alguma influência financeira sobre ele ou vídeos íntimos para chantageá-lo.

Sempre acreditei que era muito pior: que Trump, em seu coração e alma, simplesmente não compartilha os valores de todos os outros presidentes americanos desde a Segunda Guerra Mundial no que diz respeito ao papel que os Estados Unidos devem e precisam desempenhar no mundo.

Sempre acreditei que Trump tem um conjunto de valores totalmente distorcido, que não se baseia em nenhum dos nossos documentos fundadores, mas simplesmente favorece qualquer líder que seja forte, independentemente do que faça com essa força; qualquer líder que seja rico e possa, assim, enriquecer Trump, independentemente do que o líder faça com esse dinheiro ou de como o tenha obtido; e qualquer líder que o elogie, independentemente de quão óbvia seja a falsidade desses elogios.

Desde que o ditador Putin preenchesse todos esses requisitos mais do que o líder democrático da Ucrânia, Trump o tratava como um amigo —que se danassem os interesses e valores americanos. Putin nem precisou se esforçar para fazer de Trump seu fantoche.

Por todas essas razões, Trump é o presidente mais antiamericano da nossa história. Isso ficou óbvio desde o dia em que ele criticou o senador John McCain, um autêntico herói de guerra e patriota americano, por ter sido abatido em combate e feito prisioneiro.

Que tipo de americano ofenderia McCain, que ficou preso por mais de cinco anos em um campo de prisioneiros no Vietnã do Norte depois de recusar a libertação antecipada, sabendo que isso seria usado como propaganda? Nenhum americano que eu conheça.

Os piores impulsos antiamericanos e a preguiça intelectual de Trump foram contidos em seu primeiro mandato na Casa Branca por um grupo de conselheiros sérios. Desta vez, não há ninguém para contê-los. Ele se cercou de bajuladores. Portanto, Trump agora está basicamente governando o país da mesma forma que governava suas empresas —como um show de um homem só, livre para fazer negócios terríveis.

Esse estilo de gestão levou a seis pedidos de falência por parte de suas empresas. Infelizmente, agora somos todos seus acionistas, e temo que ele vá nos levar à falência como nação —moralmente com certeza, se não um dia financeira e politicamente.

O comportamento de Trump se tornou tão imprudente, tão egocêntrico, tão obviamente contrário aos interesses americanos —como até mesmo os republicanos há muito os definiram, sem falar dos democratas— que a pergunta deve ser feita: os EUA estão agora sendo governados por um rei louco?

Que presidente americano escreveria o texto que Trump escreveu ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, no domingo, dizendo que uma das razões pelas quais ele estava pressionando a Groenlândia é que não recebeu o Nobel da Paz?

Ele escreveu: “Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido oito guerras, eu não sinto mais a obrigação de pensar exclusivamente na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e adequado para os EUA.”

Leia essas palavras lentamente. Elas não gritam “América em primeiro lugar”. Elas gritam “Eu em primeiro lugar”. Elas gritam “Eu, Donald Trump, estou pronto para tomar a Groenlândia, ao preço de romper a aliança da Otan de quase 77 anos, porque o Comitê Nobel não me concedeu seu prêmio da paz no ano passado” —ignorando o fato de que o governo norueguês não controla a concessão do prêmio.

Uma coisa seria Trump dizer que está pronto para romper com a Otan por uma questão de princípio geopolítico que afeta a segurança do povo americano. Não consigo imaginar o que seria isso, mas pelo menos poderia imaginar a possibilidade.

O que é inimaginável para mim é um presidente americano tão obcecado em ganhar um Prêmio Nobel da Paz para alimentar seu ego e superar seu antecessor —bem como se igualar a Barack Obama, que ganhou o prêmio da paz em 2009— que ele estaria pronto para destruir toda a aliança da Otan e o sistema comercial com a Europa porque não o recebeu.

Estou tentando imaginar uma cena em que Trump ditou essa nota a um assessor, sem pudor, e essa pessoa a enviou aos noruegueses —presumivelmente sem que ninguém na hierarquia da Casa Branca a impedisse, sem que ninguém dissesse: “Sr. presidente, o senhor está louco? O senhor não pode colocar sua ambição pessoal pelo Prêmio Nobel à frente de toda a aliança atlântica.”

Mas Trump pode fazer isso, porque obviamente atribui pouco ou nenhum valor ao sangue, ao tesouro e à energia que gerações de soldados, diplomatas e presidentes americanos antes dele sacrificaram para construir essa parceria duradoura com parceiros europeus.

Deixe-me colocar isso em termos que Trump possa entender: se os EUA fossem uma empresa, você diria que uma geração de trabalhadores, executivos e investidores americanos construiu a corporação mais bem-sucedida, lucrativa e impactante da história do mundo —a aliança Atlântica/Otan forjada das cinzas da Segunda Guerra Mundial.

Com um investimento relativamente pequeno na Europa do pós-guerra, conhecido como Plano Marshall, criamos um parceiro comercial saudável que ajudou a tornar os EUA e a Europa mais ricos do que nunca; ajudamos a transformar a Europa de um continente conhecido por guerras nacionalistas, étnicas e religiosas no maior centro de mercados livres, pessoas livres e Estado de Direito do mundo —dando a nós mesmos um poderoso aliado democrático para ajudar a estabilizar o mundo e conter a Rússia nos últimos três quartos de século.

É verdade que a Europa enfrenta desafios assustadores, desde a migração descontrolada até a regulamentação excessiva e a ascensão de partidos de extrema direita. E sim, muitas vezes ela responde com indecisão. E sim, há preocupações legítimas com a segurança no Ártico. Mas gerações de estadistas e presidentes americanos compreenderam a importância primordial do pacto entre os EUA e a Europa e nunca nem sequer contemplariam sacrificá-lo por causa de quem tem soberania na Groenlândia.

É tão óbvio que apenas um narcisista patológico que insiste em ter seu nome em tudo —desde o Kennedy Center de outra pessoa até o Prêmio Nobel da Paz de outra pessoa— arriscaria tudo isso para tomar a Groenlândia, especialmente quando se considera que já temos o direito de operar bases na ilha e estacionar tropas e mísseis lá. Também temos o direito de investir na extração de seus minerais.

Se os EUA fossem realmente uma empresa, o conselho de administração teria respondido a um comportamento como o de Trump anunciando uma “intervenção” junto ao CEO.

Infelizmente, o conselho de administração dos EUA, o Congresso americano liderado pelos republicanos, neutralizou-se completamente. E agora, nós, o povo, nós, os acionistas, estamos prestes a ficar com a conta.

Enquanto isso, os concorrentes da América Inc. simplesmente não conseguem acreditar na sua sorte. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, tanto a Rússia quanto a China compreenderam a única grande coisa que Trump não compreende: a vantagem competitiva dos EUA.

Enquanto a Rússia e a China tinham apenas vassalos que podiam ordenar e pressionar a se juntar a eles em qualquer competição geopolítica ou geoeconômica com os americanos, os EUA tinham uma arma secreta escondida à vista de todos: aliados que compartilhavam nossos valores e estavam prontos para fazer coisas difíceis, como enviar seus soldados para lutar e morrer em nossas guerras no Iraque e no Afeganistão. Um deles era a Dinamarca, que tem soberania sobre a Groenlândia.

A Rússia e a China sonhavam que um dia algo aconteceria que faria os EUA perderem seus aliados e a Otan se fragmentar. Sem aliados econômicos, os EUA nunca poderiam ser tão influentes nas negociações comerciais com a China e, sem o poderio militar dos EUA, a Otan teria dificuldade em impedir que a Rússia retomasse partes da Europa Central e Oriental sobre as quais perdeu o controle após a queda do Muro de Berlim.

E então, um dia, seus sonhos se tornaram realidade. O povo americano elegeu um homem que, não importa o que ele nos diga, está nos levando a um futuro não de “América em primeiro lugar”, mas de “América sozinha” e “Eu em primeiro lugar”.



Fonte ==> Folha SP

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