preço e falta de diesel já afetam colheita de arroz e soja

preço e falta de diesel já afetam colheita de arroz e soja

Produtores rurais de diversas regiões do Brasil relatam desde a semana passada aumento abrupto no preço do diesel e dificuldades para abastecer máquinas agrícolas. O problema ocorre em meio ao período de colheita de arroz, que se concentra no Sul, e de soja, em todo o país.

A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e a Petrobras, maior refinadora do país, negam haver qualquer tipo de interrupção no fornecimento.

Um representante do setor de distribuição de diesel disse à Gazeta do Povo que a Petrobras reduziu o volume previsto para entrega no mês de abril em até 30%.

Com a escalada da tensão no Oriente Médio, o preço do petróleo disparou nos últimos dias, acendendo um alerta mundial no setor de combustíveis fósseis. O fechamento do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã agrava a situação, uma vez que pela região passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados no mundo.

Desde a primeira ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o preço do barril Brent, utilizado como referência internacional, acumula alta de mais de 30%. Negociado a US$ 72,48 no fim de fevereiro, a cotação gira em torno dos US$ 100 atualmente.

Em meio à crise, entidades do agronegócio e da agroindústria pressionam o governo federal para aumentar a mistura de biodiesel no diesel para 17%, como forma de garantir a segurança energética, a estabilidade de preços e a mitigação dos riscos de desabastecimento do país.

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Produtores de arroz relatam falta de diesel há dez dias; ANP nega problemas

Desde a terça-feira passada (3), produtores do Rio Grande do Sul têm enfrentado dificuldades para receber diesel por parte de Transportadores Revendedores-Retalhistas (TRRs), que fazem a entrega do combustível nas propriedades.

A hipótese defendida por entidades do setor é de uma especulação econômica por parte de distribuidores e revendedores em função dos conflitos internacionais.

Segundo a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), a partir de quinta-feira (5) o carregamento de combustível por TRRs parou totalmente.

No sábado (7), a Farsul entrou em contato com o governo do estado, que notificou o Ministério de Minas e Energia e a ANP para que tomassem medidas para restabelecer o fluxo normal de abastecimento de óleo diesel aos produtores rurais.

A ANP, no entanto, diz que a situação é normal. Em nota, o órgão regulador informou ter recebido informações sobre “dificuldades pontuais de aquisição de diesel por produtores rurais do Rio Grande do Sul”, mas ter apurado com os principais fornecedores da região “que o estado conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular de diesel”.

Na terça-feira (10), o diretor-geral da ANP, Artur Watt, reiterou a posição do órgão. “Não visualizamos falta física de produtos no momento”, disse, durante evento da agência no Rio de Janeiro. “Temos visto os principais produtores, como a Petrobras, com estoques regulares e entregas normais, então a gente não está vendo problema de abastecimento.”

O presidente da Farsul diz que o problema persiste. “Continuamos extremamente preocupados e atentos a essa pauta para que tenhamos resultado e a normalização do suprimento de óleo diesel aos produtores rurais em suas propriedades”.

Segundo a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), produtores rurais de diferentes regiões do estado têm relatado aumentos no preço do combustível nos últimos dias e cancelamento de vendas ou alegação de ausência de estoque por parte de estabelecimentos que comercializam óleo diesel.

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Distribuidora de diesel diz que Petrobras cortou volume previsto para entrega em abril

O vice-presidente do Grupo Potencial e de Relações Institucionais da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Carlos Eduardo Hammerschmidt, afirma que a Petrobras cortou em 30% o volume de óleo diesel que será entregue a distribuidoras de combustíveis em Araucária (PR) no mês de abril.

Considerando outras regiões do Brasil, a média da redução no volume que será entregue no próximo mês é de 23%, segundo o executivo.

“A Petrobras trabalha com contratos compromissados, ou seja, ela tem um compromisso com as distribuidoras de fornecer combustível para revenda aos postos”, explica Hammerschmidt.

“O que aconteceu agora para abril? Ela simplesmente cortou 30% do fornecimento do diesel de Araucária, que é o segundo maior polo de combustíveis do Brasil”, diz.

Procurada, a Petrobras afirma que não houve mudança nas entregas do combustível por parte de suas refinarias até o momento.

Nesta manhã, o presidente Lula (PT) anunciou a isenção de PIS e Cofins e uma subvenção aos setores de importação e produção de diesel no Brasil como forma de mitigar o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis.

Hammerschmidt ressalta que as medidas anunciadas pelo governo não terão qualquer efeito sobre a oferta de combustível. “É uma questão política, para tentar baixar o preço para a população, mas não de garantir produto para o mercado”, comenta.

Produtores de outros estados também relatam dificuldade de abastecimento

A falta de diesel e restrições para abastecer também afetam produtores de outras regiões do país em pleno período de colheita de soja e de cultivo da segunda safra de milho.

No Paraná, o presidente da federação da agricultura do estado (Faep), Ágide Eduardo Meneguette, disse já ter relatos de sindicatos rurais sobre falta de diesel nos entrepostos do interior.

“Como o diesel está presente em todas as etapas da produção e da logística, essa instabilidade no mercado internacional de energia está pressionando os custos e gerando dificuldades operacionais no campo”, diz Meneguette.

Segundo levantamento do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, 73% da energia utilizada na agropecuária brasileira é proveniente de combustíveis fósseis, principalmente o diesel, que abastece máquinas agrícolas e sustenta parte da logística de transporte da produção.

Em Goiás, TRRs e postos de combustíveis têm limitado a entrega de diesel nas propriedades rurais alegando falta do produto nas distribuidoras.

O preço do litro do combustível, que estava em média a R$ 5,94 em Goiânia, segundo o último levantamento da ANP, referente ao período de 1º a 7 de março, estava sendo vendido nesta semana por R$ 8,70, segundo relato de um produtor rural do estado.

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) diz que a ameaça de interrupção do fornecimento de diesel às propriedades rurais “é intempestiva, afeta diretamente a operação no campo e coloca em risco a produtividade e a segurança alimentar do país”.

Em Rondônia, a Associação dos Produtores de Soja e Milho local diz que fará interlocução com o governo do estado para propor a redução temporária do ICMS com o objetivo de atenuar o impacto inflacionário desse aumento.

Já a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), principal estado produtor da oleaginosa no Brasil, diz que a alta no diesel agrava um cenário já delicado da produção, com custos elevados, escassez e encarecimento do crédito, endividamento em patamares históricos e margens comprimidas.

“Quando o preço do combustível sobe de forma abrupta, o impacto não se restringe ao produtor rural: ele se espalha por toda a economia e chega rapidamente à mesa do consumidor”, acrescenta a associação, em nota.

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Entidades pedem ao governo aumento de mistura de biodiesel

Na quarta-feira (11), 43 entidades do agronegócio e da agroindústria divulgaram uma carta aberta pedindo ao governo federal a elevação imediata da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, dos atuais 15% (B15) para 17% (B17). Segundo as entidades, a medida ajudaria a reduzir a dependência brasileira da importação de diesel e a mitigar riscos de desabastecimento em meio à instabilidade internacional.

Para o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), o país precisa aproveitar seu potencial produtivo para ampliar a geração de energia a partir do próprio setor agropecuário.

“Hoje o Brasil ainda importa cerca de 30% do diesel que consome. Em um cenário de instabilidade internacional, isso representa uma vulnerabilidade para a nossa economia. O agro tem capacidade de oferecer parte dessa solução, transformando biomassa em combustível e fortalecendo nossa segurança energética”, afirmou.



Fonte ==>
UOL

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