Xenófobos e monarquistas – 10/04/2026 – Gustavo Alonso

Placa dizendo que israelenses e americanos não são bem-vindos no bar Partisan, na Lapa, no centro do Rio

Com alguma frequência, os brasileiros fazem leituras sui generis de fenômenos globais que aportam em nossas praias. Diante da guerra dos Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, o Brasil produziu sua pérola interpretativa, que diz mais sobre nossos dilemas enquanto nação do que se compadece com o sofrimento dos oprimidos do mundo.

A pérola desta semana apareceu na notícia sobre um bar na Lapa, zona central do Rio de Janeiro, que foi multado em R$ 9.520 no último sábado (4) por expor uma placa rejeitando a presença de cidadãos americanos e israelenses. Segundo a acusação do Procon, a placa estimulava a xenofobia e o antissemitismo.

Sob a aura da militância à esquerda, o bar, chamado Partisan, permitiu-se revelar posturas muito questionáveis. A colunista Mariliz Pereira Jorge apontou aqui na Folha que o antissemitismo travestido de “direito de expressão” higieniza o preconceito, berço do nazismo. Outros não tiveram dúvida em condenar a xenofobia do bar, ou seja, a aversão em relação ao estrangeiro ou ao que vem de fora.

Curiosamente, a postura do bar não gerou repúdio unânime. Como noticiou Mônica Bergamo, o perfil @partisandalapa no Instagram subiu de cerca de 2.000 seguidores no sábado, dia da autuação, para mais de 12 mil dois dias depois. Hoje está com 24 mil seguidores. Percebendo a lógica dos cliques, o bar lançou uma campanha de arrecadação de R$ 35 mil para pagar a multa e custear despesas jurídicas. O que sobrar, segundo o Partisan, será usado para financiar “eventos sobre o Oriente Médio, a Palestina, o Líbano, a diáspora árabe no Brasil e os direitos humanos”.

Um dado importante, que praticamente ainda não foi abordado sobre este assunto, é que o episódio revela a ausência de espírito republicano entre nós. A placa dizia “Cidadãos dos EUA e Israel não são bem vindos”. Buscava menos agredir uma raça e mais o conceito de cidadania.

Se o bar tivesse escrito “judeus não entram”, seria antissemitismo explícito. Ao escrever “cidadãos de Israel”, ele entra no campo da xenofobia. O problema é que, no Brasil, a Lei 7.716/89 coloca diversos preconceitos (de raça, religião e procedência nacional) sob o mesmo guarda-chuva criminal.

Claro que não se duvida aqui que boa parte da sociedade brasileira, de direita e de esquerda, resvala no racismo antissemita quando o contexto aperta. Mas é preciso diferenciar a lei, que embola tudo, dos aspectos explicitamente expressos na placa. O que foi dito na placa é sobretudo o repúdio à condição de cidadão. O que não me parece menos pior.

Importante lembrar que mesmo entre as esquerdas a placa radical sofreu críticas. A vereadora Tainá de Paula (PT-RJ) resumiu exatamente este ponto no X, antigo Twitter: “O radicalismo tem nos levado ao limite da barbárie! Gente, americanos não são Trump! Israelenses não são Netanyahu!”

Mas o que significa essa dificuldade de se entender a cidadania nos dias de hoje? Por que desconhecemos o papel do cidadão? Talvez porque nunca tenhamos de fato nos tornado republicanos. Afinal é na República moderna, em oposição à monarquia absolutista, que se instaurou a soberania do direito individual, pilar da cidadania.

Na visão monarquista as relações são pessoais, não institucionais. Na interpretação republicana, o cidadão é portador de direitos universais e inalienáveis, protegido pela lei independentemente de sua origem.

Ao proibir “cidadãos de Israel”, o dono do bar não está agindo como um ente republicano que respeita a lei, mas como um “senhor de terras” ou um “pequeno soberano” que decide quem entra no seu reino baseado em quem ele gosta ou desgosta. É a substituição da lei pela vontade do soberano (mesmo que esse soberano seja o dono de um bar na Lapa).

O bar Partisan, ao ignorar essa distinção, agiu como se estivéssemos no século 17. É como se dissesse: “Seu país ofendeu meus valores, logo, você, súdito, está banido do meu reino (meu estabelecimento)”. É o comportamento de quem se acha no direito de excomungar o outro, como um monarca faria com um traidor da coroa.

O que aconteceu na Lapa é um sintoma de um país que ainda não entendeu que a República serve para convivermos uns com os outros, especialmente com aqueles de quem discordamos, a partir do debate de ideias, não de origens ou sangue. Mas o que vemos hoje em dia é a substituição do debate de ideias pela interdição de corpos, um comportamento tipicamente pré-republicano, de cores monarquistas.

À esquerda e à direita, todos têm seu soberano de carteirinha, obviamente “bom e justo” a seus olhos, cuja função é excomungar os adversários e dar cabo dos “inimigos”. Quando proclamaremos a República dentro de nós, assumindo a condição (tensa) de cidadãos, responsáveis pelo próprio destino sem reis, chefes, tutores ou guias?



Fonte ==> Folha SP

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