Como a guerra no Irã pode afetar a disputa EUA x China e Rússia

Como a guerra no Irã pode afetar a disputa EUA x China e Rússia

A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, que no fim de semana passado completou um mês, gera consequências que vão além do campo de batalha, das quais a mais visível tem sido a alta dos preços do petróleo e do gás devido ao bloqueio quase total do estratégico Estreito de Ormuz pelo regime iraniano. Por esta passagem, transitavam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo antes da guerra.

Entretanto, outros impactos já começam a ser sentidos e podem influenciar a longo prazo a disputa tecnológica e militar de Washington com seus dois grandes antagonistas globais, a China e a Rússia.

Uma análise recente do think tank Soufan Center apontou que os EUA podem enfrentar dificuldades na competição com a China devido à guerra no Irã, que vem causando a interrupção de cadeias de suprimentos essenciais, como hélio e enxofre liquefeito, destruindo ativos energéticos no Golfo Pérsico e comprometendo a extração de minerais críticos e o processamento de terras raras.

“Embora os impactos a longo prazo da guerra do Irã e da competição tecnológica entre os EUA e a China ainda não estejam totalmente claros, a duração das hostilidades será um fator determinante”, afirmou o relatório.

“A guerra do Irã evidenciou que os recursos naturais e a geografia não podem ser ignorados e que o poder industrial — desde a base até a produção — definirá os rumos nos próximos anos”, destacou o Soufan Center.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, explicou que cada míssil Tomahawk, pilar do estoque militar americano, depende de pelo menos 18 minerais críticos, muitos deles processados majoritariamente na China e alguns afetados diretamente pelas interrupções logísticas no Golfo Pérsico, entre eles, tântalo, prata, cobre, bismuto, fósforo, titânio, molibdênio, cobalto, tungstênio e grafite.

“Esses materiais são indispensáveis para os sistemas que garantem a precisão, a navegabilidade e a resistência do míssil”, afirmou Coutinho.

O analista destacou que a China domina o processamento de terras raras e de vários metais críticos empregados nesses sistemas, controla etapas essenciais da cadeia de valor e é menos vulnerável ao choque energético devido à sua matriz mais eletrificada e ao domínio em tecnologias limpas. “Além disso, pode ampliar sua influência no Golfo no pós-conflito, oferecendo financiamento e reconstrução”, disse Coutinho.

A conclusão é que a capacidade dos Estados Unidos de sustentar operações militares de alta intensidade depende de cadeias de suprimentos dominadas pela China. Assim, os efeitos da guerra no Irã não apenas criam dificuldades imediatas para Washington, mas também reforçam tendências estruturais que favorecem a China no médio e longo prazo”, alertou o especialista.

EUA disparam Tomahawks além da capacidade de reposição, diz jornal

Especificamente sobre a questão dos Tomahawks, uma reportagem publicada na semana passada pelo jornal The Washington Post afirmou que os Estados Unidos dispararam mais de 850 mísseis desse tipo nas quatro primeiras semanas de conflito no Irã, o que vem gerando preocupações sobre escassez desses armamentos.

Segundo informações do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), o Pentágono tem contratos com empresas que preveem uma taxa máxima de produção de 2.330 Tomahawks anualmente. Porém, as Forças Armadas dos EUA só compram efetivamente cerca de 90 mísseis desse tipo por ano.

Kelly Grieco, pesquisadora sênior do Stimson Center, disse em entrevista à emissora CBS News que a estimativa é que o Pentágono tenha atualmente cerca de 3,1 mil mísseis Tomahawk em seu arsenal.

“É reconhecido que não temos capacidade suficiente de ataque de longo alcance, por isso temos tentado aumentar esses estoques, mas continuamos a esgotá-los”, disse Grieco.

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O impasse pode gerar repercussões na guerra na Ucrânia, cujo presidente, Volodymyr Zelensky, já manifestou preocupação sobre a possibilidade de falta de armamentos para serem repassados ou vendidos a Kiev para enfrentar a invasão russa, que em fevereiro completou quatro anos.

Em entrevista recente à BBC, o presidente ucraniano argumentou que para o ditador russo, Vladimir Putin, “uma longa guerra no Irã é uma vantagem”, porque, além de estar elevando os preços da energia (petróleo e gás são os principais produtos de exportação russos, e os EUA suspenderam parcialmente sanções à Rússia nessa área), o conflito pode “esgotar” reservas americanas de armamentos – comprometendo as vendas e repasses para aliados como a Ucrânia.

“Os Estados Unidos produzem de 60 a 65 mísseis [de vários tipos] por mês. Imagine, 65 mísseis por mês equivalem a cerca de 700 a 800 mísseis produzidos anualmente. E só no primeiro dia da guerra no Oriente Médio, 803 mísseis foram usados”, disse Zelensky, que projetou que “definitivamente” haverá um déficit de mísseis Patriot no futuro próximo.

Rubio admite que armas podem deixar de ser repassadas para a Ucrânia

Em entrevista coletiva em Paris na sexta-feira passada (27), o secretário de Estado americano, Marco Rubio, admitiu que armas podem deixar de ser entregues à Ucrânia, para que sejam utilizadas na atual guerra no Oriente Médio.

O chanceler disse que por enquanto isso não aconteceu, mas caso realmente ocorra, não se poderia falar em “armas desviadas”.

“Essas armas são nossas; são vendas”, afirmou, citando as vendas militares para a Ucrânia que estão sendo pagas pela Otan.

“Deixe-me ser claro, se os Estados Unidos têm uma necessidade militar, seja para reabastecer nossos estoques ou para cumprir alguma missão de interesse nacional dos Estados Unidos, sempre teremos prioridade quando se trata de nossos recursos. Isso vale para todos os países do mundo, a menos que sejam países que não queiram sobreviver”, alfinetou Rubio.

Marco Antonio de Freitas Coutinho apontou que o caso dos Tomahawks ilustra como a capacidade industrial americana não tem acompanhado o ritmo de consumo, já que o volume desses mísseis empregado no primeiro mês de guerra equivale a anos de fabricação acumulada.

“Mesmo que o governo determine a expansão da produção, a indústria de defesa não consegue aumentar a oferta de forma imediata, pois depende de linhas de montagem especializadas, formação de pessoal técnico altamente especializado, criação de uma estrutura de fornecedores certificados de minerais críticos não dependentes da China, e ciclos de manufatura que não podem ser abreviados”, disse o analista, citando o risco de esgotamento de estoques.

Publicamente, o governo dos EUA não admite essa preocupação. “[As forças armadas dos EUA] têm tudo o que precisam para executar qualquer missão no momento e local escolhidos pelo presidente [Donald Trump] e em qualquer cronograma”, disse Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, em resposta à reportagem do Washington Post.

Ele acusou a imprensa americana de ser “tendenciosa e obcecada em retratar as forças armadas mais poderosas do mundo como fracas”.



Fonte Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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