Como transformar pressão de endividamento em oportunidade de reorganização estratégica

Em um setor intensivo em capital e exposto à volatilidade de preços, câmbio e clima, o endividamento faz parte da dinâmica natural do agronegócio. O diferencial competitivo, no entanto, está na forma como ele é administrado. Para o executivo financeiro Márcio Peixoto da Silva Júnior, Diretor Financeiro (CFO) do Grupo Farias, a pressão sobre a estrutura de capital pode se transformar em um ponto de inflexão estratégica, desde que conduzida com disciplina, governança e visão de longo prazo.

Com mais de 15 anos de experiência no setor sucroenergético, Márcio construiu sua trajetória liderando operações estruturadas no mercado de capitais, renegociações bilionárias e processos de reorganização financeira. Ao longo da carreira, participou de emissões superiores a R$ 1,2 bilhão em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), além de captações junto ao BNDES e instituições financeiras nacionais e internacionais que ultrapassam a casa dos bilhões de reais. Também integrou negociações de reperfilamento de aproximadamente R$ 1,8 bilhão em dívidas com múltiplos credores.

“Endividamento não é sinônimo de fragilidade. Em setores como o nosso, ele é instrumento de crescimento. O problema surge quando a dívida deixa de conversar com o fluxo de caixa operacional. A reorganização começa justamente nesse alinhamento”, afirma o executivo.

Segundo ele, o primeiro passo para transformar pressão financeira em oportunidade é a leitura realista da capacidade de geração de caixa da companhia. “É preciso abandonar a visão puramente contábil e adotar uma análise integrada entre produção agrícola, eficiência industrial, mix comercial e cenário de mercado. Só assim a estrutura de capital passa a ser estratégica e não apenas reativa.”

Ao longo de sua atuação em grupos com exposição relevante ao dólar, tanto na dívida quanto na receita proveniente da exportação de açúcar, Márcio também liderou iniciativas de gestão de hedge cambial e implantação de ferramentas de controle de derivativos, fortalecendo a previsibilidade financeira. “Risco não se elimina, se administra. E a governança é o que garante transparência e credibilidade nesse processo.”

Márcio Peixoto da Silva Júnior

No Grupo Farias, onde atualmente lidera áreas como Controladoria, Financeiro, Planejamento, Tributário, TI e RH, além de participar ativamente das decisões Industrial, Agrícola e Comercial, a reorganização financeira foi acompanhada por um fortalecimento da governança corporativa. Entre as medidas implementadas estão a contratação de auditoria independente, revisão da estratégia tributária, reestruturação contábil, implantação de modelo orçamentário com KPIs mensuráveis e redução do prazo de fechamento contábil.

“Quando você organiza a casa, melhora a qualidade da informação e cria disciplina orçamentária, ganha credibilidade com bancos e investidores. A renegociação deixa de ser um pedido de socorro e passa a ser uma discussão técnica sobre sustentabilidade financeira”, destaca.

Na avaliação do CFO, a reorganização estratégica também exige diálogo constante com credores e transparência nas informações. “O mercado financeiro reage melhor quando percebe planejamento, governança e capacidade de execução. A confiança é construída com previsibilidade.”

Para ele, transformar pressão em oportunidade envolve três pilares: disciplina financeira, integração operacional e governança estruturada. “Não se trata apenas de alongar dívida. Trata-se de redefinir prioridades de investimento, revisar CAPEX, ajustar o mix de produção conforme o mercado e alinhar todas as áreas ao mesmo objetivo de geração de valor.”

Com formação em Administração e Ciências Contábeis, pós-graduações em Gestão Empresarial, Gestão Financeira, Auditoria e Controladoria, e programas executivos em instituições como FGV, INSPER, USP/PECEGE e PUC, Márcio também atua em conselhos e comitês de crédito, ampliando sua visão sobre alocação de capital e estruturação de funding no agronegócio.

Em um cenário de maior rigor regulatório e crescente demanda por transparência, sua trajetória reforça a importância de executivos capazes de integrar mercado de capitais, governança e operação. “Crises financeiras são momentos de teste, mas também de reposicionamento. Quando bem conduzidas, podem inaugurar um novo ciclo de solidez e competitividade”, conclui.

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