Datafolha e dados de Flávio Bolsonaro, saúde e segurança – 14/03/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Dois sismógrafos geram gráficos de cores diferentes.

De repente do Bolsonaro fez-se o Flávio. Como numa espécie de versão pragmática do “Soneto de Separação”, alguns leitores observaram que o senador Flávio Bolsonaro (PL) vem perdendo o sobrenome no noticiário, na medida em que consolida seu papel de candidato viável contra o presidente Lula (PT). Se antes era o 01 do Bolsopai, agora virou apenas Flávio. Que Flávio?

“Datafolha: Flávio se consolida e empata com Lula no 2º turno”, “Centrão aponta problemas de Lula e crises do governo como fator de crescimento de Flávio”, “Pré-campanha de Flávio registra aumento de ataques”, “Flávio discursará em evento conservador que deve ter presença de Trump nos EUA”, “Governo Lula culpa privatizações por aumento de preços dos combustíveis em ofensiva contra Flávio”.

Não deixa de ser curioso que se tenha produzido tão rapidamente o efeito Flávio. É impossível não admitir que seu prenome curto ofereça uma certa praticidade jornalística a títulos menores (ou com mais espaço para elucubrações), chamadas enxutas, notas taquigráficas. Mas até que ponto faz sentido enunciar Flávio sem Bolsonaro?

O primeiro sempre foi parte indissociável da irmandade policéfala que vivia, ao menos politicamente, à custa do pai e cuja candidatura também teria sido urdida pelo patriarca encarcerado (e no momento acamado).

E não foi só a promoção de Flávio Bolsonaro a Flávio que chamou a atenção na semana das pesquisas. Uma leitora escreveu para pedir mais cuidado com elas.

Ao divulgar os resultados do Datafolha, a Folha elaborou um recorte bastante peculiar a respeito das preocupações nacionais: “9% veem corrupção como principal problema do país, afirma Datafolha”. Um leitor, “assinante desde 2002, com períodos de interrupção e retomada da assinatura”, observa que “a principal preocupação dos brasileiros/as é com a ‘saúde’, e a ‘corrupção’ aparece em 5º lugar, mas ainda assim é exatamente a corrupção a preocupação destacada no texto”.

O próprio texto informava que, “de acordo com o levantamento, saúde (21%) lidera entre os principais problemas do país citados pelos entrevistados, tecnicamente empatada com segurança (19%). A menção a corrupção (9%) só aparece depois, numericamente atrás de economia (11%) e ao lado de educação (9%)”.

O jornal tentou elaborar algo a respeito do caso Master, mas acabou deixando de lado a notícia e indo atrás do que mais soava a picuinha.

Assim, não conseguiu se aprofundar em duas questões: a falta de novidade na manutenção do dígito único e como é que essa aparente baixa preocupação com a corrupção se relaciona com os índices de desconfiança recordes em relação ao STF (Supremo Tribunal Federal) e a outras instituições. As pontas ficaram isoladas.

Havia algumas hipóteses na notícia da percepção em relação ao STF e ao Judiciário. “Entre as principais causas para o desgaste do STF em 2026 pode estar o caso Master, que envolve relações suspeitas entre ministros do Supremo e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco”. O texto também relacionava os resultados à “percepção pública de falta de limites éticos”. Mas como é que isso não se convertia em preocupação com corrupção? Os textos não se conectavam.

Talvez falte atualizar os termos da pesquisa —talvez “corrupção” já não dê conta do Brasil.

Enquanto a Folha ia atrás dos números frios da corrupção e deixava de lado o combo saúde-segurança, o concorrente carioca O Globo colocou a questão no ar sem malabarismo e na ordem em que aparecia: “Eleitores veem saúde e segurança como os principais problemas do país, diz Datafolha; 9% citam corrupção”.

Há uma questão aí que pode estar perdida na burocracia. A publicação dos resultados do Datafolha costuma ser “fatiada” e distribuída entre as editorias da Folha como se fossem alas de uma escola de samba.

A ordem não costuma mudar muito: saem primeiro as pesquisas de intenção de voto e demais assuntos de política, depois vem a parte de economia, talvez mais algum resquício da política, e só então começam a aparecer os outros assuntos. Nesses “outros assuntos” podem estar os que encabeçam a preocupação dos brasileiros. Ou seja, talvez ainda sobre algo para saúde e segurança. Talvez não.

Segundo relatório já divulgado pelo Datafolha, “a percepção de que a segurança é o principal problema nacional de responsabilidade do governo federal é a mais alta, ao menos, desde setembro de 2023”. Já “entre as mulheres, a saúde se destaca como principal problema (26%), com distância sobre a segurança (18%)”.

As últimas eleições evidenciaram a desconexão entre o mundo político e as preocupações reais das pessoas, com a segurança pública assumindo um protagonismo que gerou bastante desgosto em diversos pontos do espectro ideológico.

E é preocupante que justo o jornal mantenha essa toada.

A esse respeito, vale voltar a um parágrafo que estava no meio dos relatos da Folha sobre desconfiança institucional. “Em relação à imprensa, 36% dizem não confiar na instituição, contra 28% em dezembro de 2024. Já a confiança plena nos veículos de comunicação recuou de 22% para 15%.” Os 36% se aproximam dos índices de junho de 2018, quando os que afirmavam não confiar na imprensa eram 37%. Aquele também era um ano eleitoral.



Fonte ==> Folha SP

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