Declínio populacional é realmente um grande problema? – 18/02/2026 – Martin Wolf

Placa triangular vermelha com símbolo preto de duas pessoas idosas usando bengalas, acompanhada de placa retangular branca com texto

Em “The Population Bomb”, publicado em 1968, Paul e Anne Ehrlich previram de forma notória que a humanidade enfrentava um perigo iminente de fome em massa. Essa ameaça, argumentavam, vinha da explosão populacional.

Hoje, no entanto, pessoas como o vice-presidente americano J.D. Vance se preocupam com a escassez de pessoas, à medida que as taxas de fertilidade despencam abaixo da taxa de reposição. Os Ehrlich estavam errados sobre aquelas fomes iminentes. Será possível que os alarmistas do outro lado também estejam errados? Sim. As pessoas podem ficar histéricas sobre bebês. Por que não relaxar e aproveitá-los?

O respeitado projeto Our World in Data estima a população global em apenas 5 milhões há 12 mil anos, 230 milhões no ano zero, 1 bilhão em 1800, 3 bilhões em 1960 e 8 bilhões hoje. Quanto ao futuro, a ONU prevê uma população global de 10,2 bilhões em 2100. O mundo claramente não está ficando sem pessoas. Qual é o problema, então?

A resposta, como observei na semana passada, é que em muitos países a fertilidade está agora abaixo —e em alguns, como a China, muito abaixo— da taxa de reposição. Das principais regiões do mundo, as exceções são o sul da Ásia e a África.

Em geral, quanto mais próspero o lugar ou as pessoas, menos nascimentos. Isso não é verdade apenas entre países. Dentro da Índia, o estado de Tamil Nadu tem o 8º maior PIB per capita e uma taxa de fertilidade de 1,8, enquanto Bihar, com o 34º maior PIB per capita, tem uma taxa de fertilidade de três. Da mesma forma, mulheres com ensino superior tendem a ter menos filhos do que as sem diploma. A prosperidade é o contraceptivo mais poderoso de todos.

A explicação que abordei na semana passada foi a transformação no papel das mulheres. Mas mesmo essa questão de gênero faz parte de um conjunto mais amplo de mudanças. Duas outras —urbanização e educação em massa— também importam. A primeira move as pessoas para lugares onde a terra é relativamente cara, enquanto a segunda transforma as crianças de ativos produtivos no curto prazo em investimentos custosos de longo prazo.

Filhos adultos também podem agora se mudar para longe dos pais. A modernidade também cria mercados de capitais, aposentadorias e estados de bem-estar social, todos substitutos do apoio financeiro dos filhos. Por fim, a modernidade cria novos prazeres, que competem com os de ter filhos. Podemos ver os efeitos de todas essas mudanças nos dados de fertilidade.

Então, devemos nos preocupar com a possibilidade de quedas populacionais em muitos lugares, talvez em última instância para a humanidade como um todo? Não, argumenta o economista britânico Adair Turner.

Um dos argumentos favoritos de por que as taxas de fertilidade em declínio são potencialmente catastróficas é que as “taxas de dependência” vão disparar. Medida da forma usual, como a proporção de pessoas acima de 65 anos em relação às de 15 a 64 anos, isso é verdade. Mas isso ignora a queda na proporção de jovens, muitos dos quais agora são dependentes até os vinte e poucos anos. Assim, as taxas de dependência gerais subirão muito menos, exceto nos casos mais extremos de baixa fertilidade. Também ignora o potencial de as pessoas trabalharem por mais tempo. Na Coreia do Sul, 38% das pessoas acima de 65 anos estavam trabalhando em 2024, contra ridículos 4% na França.

Além disso, acrescenta Turner, o aumento da produtividade, possivelmente acelerado pela inteligência artificial, oferece uma saída. Note que as pessoas trabalham muito menos horas do que trabalhavam há dois séculos, porque são vastamente mais produtivas do que eram em, digamos, 1800. Assim, observa Turner, a parcela de horas disponíveis gastas trabalhando após os 15 anos em países de alta renda caiu pelo menos 60% desde então. Mas a produção real per capita aumentou 15 vezes. Se isso continuar, como é provável, um aumento modesto na taxa de dependência seria extremamente administrável.

Alguns também argumentam que haverá “poucos inovadores”. Bobagem! A população global nem sequer deve cair antes de 2100. Além disso, agora temos uma força de trabalho muito mais bem educada, a inclusão das mulheres e os ganhos da IA. Ademais, a inovação radical sempre foi impulsionada por poucos. E não menos importante, a população de hoje é um múltiplo do que era há um ou dois séculos, quando a inovação ia muito bem. O que importa mais é proporcionar o ambiente para a inovação, especialmente o apoio à ciência.

Novamente, tem havido muita conversa sobre os “dividendos demográficos” que supostamente vêm de populações jovens. Na verdade, observa Turner, “não há evidência de que economias com taxas de fertilidade sustentadamente altas cresçam mais rápido. Pelo contrário, fertilidade persistentemente alta frequentemente leva a um desastre demográfico de crescimento lento da renda e desemprego generalizado”.

A Índia é um exemplo preocupante. Dados do Banco Mundial mostram que nas últimas duas décadas, a população em idade ativa subiu de 700 milhões para 1 bilhão. Mas, segundo o relatório “State of Working India 2023” da Universidade Azim Premji, apenas 490 milhões contam como parte da força de trabalho. Destes, diz Turner, apenas 113 milhões ganham um salário regular fora da agricultura, e mal 60 milhões estão empregados no “setor organizado”, onde as empresas realmente utilizam tecnologias de ponta. A população crescente da Índia, infelizmente, criou um mar de subemprego crônico ao redor de uma ilha de prosperidade. Em grande parte da África, essa situação é pior.

Por fim, populações crescentes impõem custos —não apenas os ambientais globais, mas também os locais. Estes incluem os preços disparados de terrenos urbanos e, portanto, de moradia em muitos países (eles próprios uma explicação para as baixas taxas de natalidade). De fato, a competição por “bens posicionais” intrinsecamente escassos é exacerbada por populações crescentes e, portanto, seria amenizada pelo inverso.

A conclusão, então, é que não há razão poderosa para temer populações em declínio. O tipo de colapso anunciado por taxas de fertilidade abaixo de um seria de fato problemático. Mas uma taxa de fertilidade de 1,5 ou acima deveria ser perfeitamente viável, com um pouco de planejamento sensato. O que precisaria ser feito para alcançar isso? Espero abordar essa questão em breve.



Fonte ==> Folha SP

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