Dificuldade de contratação convive com milhões de brasileiros fora do mercado formal; exclusão digital e modelo de recrutamento ajudam a explicar o paradoxo.
Empresas brasileiras enfrentam um cenário contraditório: vagas abertas permanecem sem preenchimento, enquanto milhões de pessoas seguem desempregadas ou subaproveitadas. O problema, segundo especialistas em mercado de trabalho, não é falta de gente querendo trabalhar, mas sim um modelo de recrutamento que deixou de alcançar uma parte significativa da população.
Jovens da periferia, mães solo, trabalhadores do interior e pessoas fora do ambiente digital tradicional acabam invisíveis para os processos seletivos, cada vez mais concentrados em plataformas online e redes profissionais.
O paradoxo da contratação no Brasil
Levantamentos recentes mostram que a maioria das empresas declara dificuldade para preencher vagas, inclusive em funções de entrada. Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros seguem fora do mercado formal, especialmente em regiões de menor renda.
A explicação passa pela exclusão digital. Grande parte da população acessa a internet apenas pelo celular, com pacote de dados limitado, conexão instável e sem computador em casa. Currículos em PDF, formulários longos, testes online e entrevistas por vídeo acabam funcionando como barreiras, e não como pontes.
O candidato que quer trabalhar, mas não aparece
Esse trabalhador não é desinteressado.
Ele simplesmente não aparece nos filtros digitais.
Está nas comunidades, nos bairros afastados e no interior do país. Trabalha informalmente, faz bicos, cuida da família e busca renda, mas não consegue acessar processos seletivos desenhados para quem está permanentemente conectado. Quando o caminho até a vaga é 100% digital, uma parte relevante da força de trabalho brasileira fica automaticamente de fora.
Estratégia de recrutamento amplia a escassez
Ao concentrar a busca por talentos apenas em portais de emprego e redes sociais profissionais, as empresas acabam disputando sempre o mesmo perfil de candidato: conectado, experiente e já inserido no sistema.
O resultado é:
• aumento do tempo de contratação
• maior custo por vaga
• sensação constante de “apagão de talentos”
Enquanto isso, trabalhadores com disposição, potencial e vontade de aprender seguem fora do radar.
Surge a Agência Nacional de Emprego
É nesse contexto que surge a Agência Nacional de Emprego (ANPE). A proposta não é ser mais um site de vagas, mas atuar como ponte entre empresas e o Brasil que quer trabalhar, mas não aparece nos portais tradicionais. A ANPE atua diretamente nas comunidades, escolas, projetos sociais e organizações locais, identificando jovens e trabalhadores fora do radar digital. Esses candidatos passam por orientação e preparação básica antes de serem encaminhados diretamente às empresas parceiras.
O modelo atende tanto CLT quanto estagiários e jovens em início de carreira, ao mesmo tempo em que ajuda empresas a formarem equipes mais comprometidas e alinhadas com a realidade do negócio.
Denis Sá e Priscila Sá: empresários à frente da iniciativa
A ANPE é liderada por Denis Sá e Priscila Sá, presidentes e fundadores da agência.
O casal é dono de uma holding empresarial e atua há anos ajudando empresas a crescerem e a se reestruturarem, inclusive em momentos de dificuldade. A vivência prática com negócios fez com que conhecessem de perto os desafios enfrentados pelos empresários brasileiros: dificuldade para contratar, alta rotatividade, pressão por resultados e falta de mão de obra preparada.

Priscila Sá também atua como investidora anjo, apoiando empresas com estratégia e estrutura, sempre com foco em crescimento sustentável. Segundo os fundadores, contratar bem é um dos fatores mais decisivos para a sobrevivência e a expansão de qualquer empresa, e o modelo atual deixou de dialogar com a realidade do país.

Inclusão social com resultado econômico
Ao sair do recrutamento exclusivamente digital e ir até onde as pessoas estão, a ANPE propõe um modelo que combina inclusão social e eficiência empresarial. Para as empresas, o ganho está na redução do tempo de contratação, na formação de equipes mais engajadas e na diminuição da rotatividade. Para o trabalhador, a oportunidade é acessar o primeiro emprego formal, algo que, muitas vezes, nunca chegou pelos canais tradicionais.
Um novo olhar sobre o mercado de trabalho
A experiência da Agência Nacional de Emprego reforça uma conclusão: o problema da contratação no Brasil não é falta de gente, mas falta de conexão entre empresas e a realidade da força de trabalho. Ao reconectar esses dois lados, iniciativas como a ANPE apontam para um novo modelo de recrutamento, mais humano, mais eficiente e alinhado ao Brasil real.