Joãozinha Desviada: peça transforma luto em ritual cênico – 16/12/2025 – Mise-en-scène

Joãozinha Desviada: peça transforma luto em ritual cênico - 16/12/2025 - Mise-en-scène

“Joãozinha Desviada” é um monólogo autoficcional que transforma o luto em ato cênico. A peça nasce da ausência: a morte do pai, Juracy, com quem o autor e ator, João Ricken, não conversava há um ano. A distância física (entre cidades) e emocional se torna matéria-prima para o teatro. O palco vira o lugar das conversas nunca tidas, um espaço ritual onde a saudade é compartilhada.

A dramaturgia foge do melodrama. Em vez de retratar o pai como vilão, o espetáculo o mostra como produto de uma masculinidade que silencia afetos. Com humor e ironia, Ricken investiga essa herança afetiva, perguntando-se se o pai também carregava suas próprias dores e desejos não vividos.

E aqui surge a metáfora central: a transformação em formiga. “Joãozinha” não é apenas uma redução de João; é uma viagem de gênero, uma identidade desviada. A formiga, ser coletivo e subterrâneo, permite falar do luto de modo lúdico e simbólico. É como se, ao virar formiga, o personagem pudesse visitar o pai na terra, descer ao túmulo sem medo, e ainda questionar as rígidas estruturas do mundo humano.

No decorrer da peça, a cachaça entra como elemento de ritual. O ator oferece um gole à plateia e brinda “à saudade”. O gesto é simples, mas potente: tira a morte do ambiente solene e a coloca na mesa de bar, no território da vida. A plateia vira cúmplice, uma comunidade passageira de quem também carrega ausências.

O tempo em cena não é linear. Segue a lógica da memória: saltos, repetições, flashes de afeto e silêncio. O cenário é a mente do personagem — um lugar onde convivem a dor, a fantasia e o humor ácido.

“Joãozinha Desviada” é, no fim, um ato de reconciliação. Não com o pai que partiu, mas com a própria história. E, ao compartilhar essa jornada, o espetáculo acolhe quem assiste, lembrando que o luto, como o teatro, é um espaço onde os vivos seguem conversando.

Três perguntas para…

… João Ricken

De que forma a escrita da peça funcionou como “a conversa que nunca aconteceu” com seu pai, criando uma escuta impossível na vida real?

Quando meu pai faleceu, nós já não nos falávamos há um ano, devido a um acúmulo de embates. Talvez, na minha inocência, eu sentisse que estava tentando mudar o mundo ao brigar com ele. A escrita da peça foi parte do meu processo de entender que, para além de ser meu pai, muitas vezes ele era porta-voz de discursos que são anteriores a ele e que seguem sendo disseminados.

Eu não fui a primeira nem serei a última pessoa a ter feridas com o pai ou com o universo masculino. Então meu intuito com a peça não é de expor as brigas que tive com meu pai, mas sim de criar um espaço sensível de diálogo sobre pontos que talvez a gente discordasse, principalmente acerca do tema da masculinidade. E se essa conversa não é possível de se ter com ele na vida real, que seja possível com a plateia.

Para mim, é justamente sobre tornar possível essa “conversa impossível” por meio do encontro com o público, focando em transformar em humor e diálogo conversas que antes pra mim eram promessa de embate e ressentimento. A conversa que “nunca aconteceu” segue acontecendo e amadurecendo a cada encontro com o público.

Como o título “Joãozinha Desviada”, com sua flexão de gênero, dialoga com as discussões sobre identidade queer e dissidência na obra? A “formiga” representa uma fuga das expectativas rígidas de masculinidade?

Esse nome por si só já carrega muito da discussão da peça. Mistura o masculino e o feminino, o aumentativo e o diminutivo… Na peça, eu digo que “Joãozinha é meu nome de formiga”. A metáfora da formiga permite que eu me distancie criticamente da figura de homem sem que eu precise ocupar um lugar de gênero que não é meu.

Quando nos referimos às formigas, normalmente usamos os pronomes “ela/dela”, mesmo que a gente não pense nelas como mulheres, não é? Mais do que isso, a formiga acaba ganhando vários significados na peça: ela é uma maneira de representar masculinidades desviadas da norma, ou mesmo outras identidades dissidentes, ao mesmo tempo em que dialoga com o desejo que eu mesmo tive de “ser menor” quando eu era criança e batalhava com o peso, e talvez também com a vontade de dissociar de si em momentos de dor emocional.

Entendo a formiga, acima de tudo, como a camada lúdica dessa conversa, que permite que minha criança também esteja viva em cena, curiosa e brincalhona. E que discussões podem ser provocadas quando um homem, com aparência de homem, diz ser uma formiga? E se ele começa a tentar borrar essa “aparência de homem”? Tudo isso para perguntar: “o que é um homem?”. Mais do que responder, me interessa colocar esses tensionamentos em jogo na peça, desde o título.

O brinde com cachaça à plateia, como “brinde à saudade”, altera a atmosfera e a relação ator-espectador? Você vê esse gesto como uma democratização do luto, tirando-o do espaço privado?

Com certeza. O que mais me importa nesse trabalho não é ficar falando sobre a dor de perder meu pai, mas sim estabelecer uma experiência de diálogo e de troca com quem está presente, no aqui-e-agora. Desde o momento em que recebo o público na porta, ao momento em que fechamos os olhos juntos e pensamos em uma saudade, até eu oferecer e servir a cachaça, para só depois introduzir uma pergunta mais pessoal a alguém da plateia, tudo isso tem uma sequência pensada para criar um espaço de confiança e de intimidade.

A interação com o público é central nessa dramaturgia. O compartilhamento de opiniões, memórias e saudades por parte da plateia é crucial para que a peça cumpra seu início, meio e fim. Então, na criação de “Joãozinha Desviada”, a dramaturgia e a direção são movidas principalmente pela preocupação com o envolvimento do público. A maneira de introduzir e conduzir essas ações compartilhadas, como o brinde, a brincadeira e a reflexão sobre a saudade, fazem toda a diferença para a relação entre público e obra.

Tematicamente, o luto e a saudade também são experiências que nos aproximam enquanto seres humanos: todo mundo que vive o suficiente perde alguém, todo mundo sente falta de algo (ou pelo menos a grande maioria). E a cachaça ajuda a trazer o público para uma mesma atmosfera sensorial, principalmente depois de eu revelar que tinha cachaça no funeral do meu pai. Fora que ele certamente gostaria de poder tomar uma cachacinha assistindo a essa peça.

Espaço Parlapatões – praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, região central. Ter. e qui., 20h. Até 18/12. Duração: 60 minutos. A partir de R$ 25 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro



Fonte ==> Folha SP

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