Entre as muitas histórias que a pandemia poderia ter apagado, “A Lista” surgiu como um gesto de resistência que começou em maio de 2020 como uma forma de apoiar artistas em tempos de isolamento e transformou-se em algo maior: uma peça que não apenas sobreviveu ao distanciamento, mas dele extraiu sua força. Com texto de Gustavo Pinheiro e direção de Guilherme Piva, o espetáculo estreou fisicamente no Teatro Renaissance em março de 2022, depois de uma jornada singular — primeiro online, depois em apresentações reduzidas, até finalmente ocupar o palco em sua versão completa.
Lília Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha na vida real, encarnam Laurita e Amanda, duas vizinhas separadas por gerações, hábitos e visões de mundo. O que poderia ser apenas um conflito entre diferenças torna-se uma narrativa sobre como o acaso pode aproximar até mesmo quem parece destinado a nunca se entender. Laurita, aposentada e presa a comportamentos rígidos, e Amanda, jovem e despojada, descobrem que por trás de suas máscaras sociais há dores e esperanças semelhantes. Nenhuma das duas é completamente heroína ou vilã, e é nessa ambiguidade que reside sua humanidade.
A montagem não se limita a um tempo único. A direção de Piva conduz o espectador por três planos temporais — um passado marcante, um presente conturbado pela pandemia e um futuro que ainda se desenha — sem jamais perder o ritmo. A iluminação e o cenário amplificam a sensação de transição entre memória, realidade e possibilidade.
Apesar de tratar de um momento difícil de nossa história recente, a peça traz leveza através do humor, sempre bem dosado. As tiradas ácidas de Laurita e as respostas desconcertantes de Amanda provocam risos, mas também revelam as feridas por trás das palavras. Pinheiro escreve diálogos verdadeiros que nos convidam a refletir sobre como nos relacionamos — com os outros e com nós mesmos.
Giulia Bertolli, em sua segunda incursão no teatro, traz uma Amanda que oscila entre a vulnerabilidade e a resiliência, enquanto Lília Cabral, com sua experiência, entrega uma Laurita complexa, capaz de irritar e comover no mesmo fôlego. A cumplicidade entre as duas no palco transborda a ficção, adicionando camadas de significado a cada cena.
Além de retratar o período da pandemia, “A Lista” fala do que vem depois — da dificuldade de reconstruir laços, da coragem necessária para abrir mão de preconceitos e da beleza inesperada que pode surgir quando permitimos que o acaso nos surpreenda. Não é um manifesto otimista, é um retrato honesto de como, mesmo em tempos de divisão, ainda é possível encontrar pontes.
Três perguntas para…
… Lilia Cabral
“A Lista” nasceu durante a pandemia, inicialmente como uma forma de apoiar artistas. Como foi transformar esse gesto de solidariedade em um projeto artístico tão consistente?
Bom, a ideia inicial, quando fomos convidados pela Ana Beatriz Nogueira para participar do projeto Teatro Já, era justamente ajudar muita gente que ficou sem trabalho — principalmente o pessoal dos bastidores. Essa sempre foi nossa intenção. Só que, com o tempo, percebemos que não era só uma vontade nossa: havia uma necessidade real de que essa história fosse contada, de que ela continuasse.
Não sei explicar direito… Às vezes, a própria intuição ou a vida vai te levando por caminhos que se abrem, e você entende que aquela história precisava seguir.
Acho que a consistência de “A Lista” está exatamente nisso: nos nossos momentos, nas nossas verdades. E, apesar de contarmos uma história completamente diferente das nossas vidas, ela é muito próxima dos sentimentos humanos — e isso era algo que discutíamos muito. Se o público entende onde queremos chegar, é porque isso vem não só do texto, mas do sentimento, da forma como mostramos nossas descobertas, nossas alegrias, frustrações, tristezas e perdas.
Durante todo o processo, perdemos amigos, recuperamos outros, fomos entendendo que essa história era necessária — e de forma muito simples. E o simples é bonito. É bonito de fazer, de contar. Acho que foi nesse espírito que sentimos a força da peça para virar filme, para virar livro. E, se a gente fosse medir em alguma escala, não pensaríamos no valor, mas na necessidade. E o teatro é isso: uma forma necessária. É isso.
Trabalhar ao lado da sua filha no palco adiciona uma camada única à história. Como foi dividir essa experiência artística com ela?
Eu acho que a beleza de eu estar com a Giulia em cena é que nós duas somos muito responsáveis. Eu sinto que a responsabilidade dela ter escolhido essa profissão, ter escolhido esse caminho, que ela sabe das dificuldades e das alegrias, das tristezas, das frustrações, dos caminhos a serem descobertos e isso tudo ela mantém com muita… Com aqueles olhinhos assim de querer experimentar, de querer enfrentar e eu vou observando tudo que um dia eu já fiz com a idade dela.
É tão bom estarmos juntas nesse trabalho, porque de fato nós duas temos muito para contar. E também temos muito o que aprender. Eu tenho muito o que aprender com ela e ela comigo. É uma troca muito bonita da gente em cena. É uma troca muito especial, principalmente aqui no [teatro] Faap, que, bom onde praticamente minha história começou. Então, é muito especial os momentos que nós estamos no palco e os momentos quando a gente chega no teatro e quando a gente acaba a peça. É fundamental para mim. E eu acredito que, para ela, está fazendo um bem danado, porque ela tem gosto de pisar no palco, ela entende o que é pisar no palco, e eu vejo, observo, e nós duas, como atrizes em cena, vamos tomando conta desse picadeiro e cada dia é uma grande surpresa e a gente sempre sai com a sensação de missão cumprida.
Depois de um período tão difícil para a cultura, como você vê a recepção do público ao teatro hoje?
Foi uma grande surpresa quando estreamos essa peça aqui em São Paulo, no Teatro Renaissance. Já na primeira semana, a casa estava lotada. Fiquei surpresa mesmo — achava que tudo voltaria, mas que o teatro não voltaria do mesmo jeito. Imaginava que as pessoas iam correr para o cinema, para os bares, restaurantes… E tudo isso foi voltando aos poucos. Mas o teatro, não.
As pessoas, o público estavam com muita necessidade de ver, de estar ali. A gente sente isso. Mesmo com máscaras, queriam sentar na plateia, dar boas risadas, se emocionar, sair com aquela sensação de satisfação. Isso foi crescendo, os teatros foram lotando, lotando, não era só a gente, as pessoas estavam falando e comentando exatamente sobre como é que o público reagiu depois que houve essa brecha e que as pessoas começaram a sair de casa, a voltar a viver a vida.
No meu discurso no final de cada sessão, quando convido o público para voltar até o último final de semana, sempre falo sobre a arte, a cultura, e é um caminho que se abre para eles e eles recebem muito bem e eles fazem questão de aplaudir como se dissesse assim: bom, a gente gosta disso, a gente gosta de arte, a gente gosta do teatro, a gente faz parte dessa história, né?
O público é nosso cúmplice, é nosso amigo, e ele quer demonstrar isso. Ele é generoso com a gente, ele gosta de mostrar que está com a gente. Eu acho que isso foi um crescimento para a gente entender e não desistir. Foi o público que também não deixou a gente desistir de jeito nenhum. A gente só tem a agradecer!
Teatro Faap – rua Alagoas, 903 – Higienópolis, região oeste. Sex. e sáb., 20h. Dom., 17h. Até 3/8. Duração: 75 minutos. A partir R$ 70 (meia-entrada) em faap.br/teatro/peca/a-lista/
Fonte ==> Folha SP