O que Buffett enxergou no New York Times – 26/02/2026 – Opinião

O que Buffett enxergou no New York Times - 26/02/2026 - Opinião

Dias atrás, veio a público a informação de que a Berkshire Hathaway, empresa de investimentos fundada por Warren Buffett, havia investido cerca de US$ 350 milhões na compra de uma participação acionária no The New York Times.

A decisão, tomada pouco antes da aposentadoria de Buffett, surpreendeu o mercado. Anos antes, a Berkshire havia saído de todos os seus ativos de mídia, numa demonstração de ceticismo quanto ao futuro do setor, abalado pelas novas tecnologias e pelo crescimento das redes sociais.

Mas as coisas estão mudando. E Buffett, 95, percebeu. Fundado há quase 175 anos, o jornal da família Ochs-Sulzberger é provavelmente o maior ícone da chamada “imprensa tradicional”. Todos os dias, seus quase 2.000 jornalistas produzem reportagens, fotos, artigos, vídeos e análises, lidos e vistos —em exemplares impressos ou por meio de plataformas digitais— em todo o mundo. O NYT é o jornal por excelência, cuja trajetória foi imortalizada por Gay Talese em seu magistral “O Reino e o Poder”. Hoje, essa máquina de produção profissional de conteúdo aparece como um ativo estratégico.

O movimento da Berkshire Hathaway não pode ser visto como uma mera movimentação de portfólio de investimentos. Trata-se, isso sim, de um sinal econômico e político. Ao longo de sua longeva e bem-sucedida carreira, Buffett provou que sabe ganhar dinheiro ao enxergar oportunidades de mercado invisíveis para a maioria. Ele está vendo valor real na instituição do jornalismo profissional e de qualidade, em meio a uma era marcada pela desinformação sistemática e intencional e pelo uso abusivo ou inadequado (ou ambos) da inteligência artificial. Ao colocar US$ 350 milhões em uma mídia vista como “tradicional”, Buffett e os demais gestores de sua empresa vêem uma demanda crescente e urgente por transparência, independência e governança na produção e na distribuição de informação. E enxergam ganhos futuros para seus investidores.

Não há romantismo algum no lance feito pela Berkshire Hathaway. Ao longo dos últimos anos, o NYT se reinventou como negócio, sem abrir mão de seus valores fundamentais, difíceis de serem copiados. Montou uma poderosa estrutura de assinaturas digitais, que garante receitas recorrentes vindas de uma audiência disposta a pagar por conteúdo relevante e crível, e incrementou sua oferta com plataformas de esportes, jogos e culinária. Reforçou, assim, sua marca global, calcada em sua principal fortaleza: credibilidade —hoje, um artigo de luxo e, paradoxalmente, cada vez mais necessário.

O jornalismo profissional, livre e cujo principal compromisso é com o leitor —ou com suas audiências, num formato contemporâneo— é fundamental para a construção de um mercado saudável e permanece como um dos pilares da democracia, tal como a conhecemos. Tem a função de vigia da sociedade e de guardião do bom funcionamento das instituições. Seu sucesso e perenidade se baseiam numa relação de confiança. Pelas regras do bom jornalismo, interesses individuais não podem se sobrepor aos interesses coletivos. O contraditório é bem-vindo e a checagem, obrigatória. É o contrário —e aí reside sua importância crescente nestes nossos tempos— da lógica dos algoritmos, que alimenta as bolhas digitais.

Em seu livro “Engenheiros do Caos”, o cientista político franco-italiano Giuliano da Empoli destrincha o trabalho subterrâneo de estrategistas, cientistas de dados e especialistas em algoritmos para manipular —com desinformação, memes e técnicas de segmentação digital— estratos da sociedade e, assim, influenciar os rumos políticos de países, quase sempre minando as instituições democráticas (a boa política, o sistema eleitoral, o Judiciário, a imprensa). No lugar de independência, vínculos pessoais. No lugar do contraditório, o extremismo. Em vez da busca pela verdade dos fatos, a mentira deliberada. Trata-se de um sistema perverso e perigoso, que se alimenta de medo, ressentimento, divisão e ódio —e nos faz regredir como sociedade.

Não se trata de demonizar a tecnologia, as redes sociais e a inteligência artificial. Elas são o que são: ferramentas à disposição do progresso. A questão é o que estamos fazendo com tudo isso. A narrativa da sociedade não pode ser delegada ao algoritmo, sob risco de destruirmos um sistema democrático para o qual —até agora— não há contraponto satisfatório. Uma parte importante da sociedade já percebeu isso.

Estamos em meio a uma batalha civilizatória. E a imprensa profissional, livre, responsável e independente é uma das principais armas para a democracia vencer.

Em tempos nos quais muitos se esforçam para confundir verdade e mentira, fatos com manipulação, o investimento de um dos maiores financistas da história no The New York Times nos traz alento e esperança.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 * 3 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.

Últimas Notícias

[the_ad id="48"]