Se for confirmado como presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh será um falcão da inflação ou um poodle de Donald Trump? Suas declarações reiteradas sobre política monetária e sobre as obrigações mais amplas do Fed sugerem a primeira opção.
Mas comentários mais recentes sobre o cenário inflacionário, e o fato de ter sido escolhido por Trump, apontam fortemente para a segunda. De forma mais ampla, trata-se de um homem de convicção e discernimento ou de um biruta, levado pelos ventos da política republicana, favorável a uma política monetária frouxa quando os republicanos estão no poder e apertada quando os democratas governam?
As palavras de Warsh indicam que ele é, em grande medida, um banqueiro central adepto do “dinheiro duro”. Em especial, em um discurso ao Shadow Open Market Committee, em Nova York, em março de 2010, quando a economia dos EUA ainda lutava contra as consequências profundamente recessivas da crise financeira de 2008, ele já demonstrava preocupação com a credibilidade do Fed.
Warsh apresentou quatro pontos principais. Primeiro, a independência do Fed se aplica apenas à política monetária, não à “política regulatória, à proteção do consumidor ou a outras responsabilidades concedidas ao Federal Reserve”. Segundo, o “Fed, como primeiro a responder, deve resistir firmemente à tentação de ser o salvador final”.
Terceiro, “os governos podem ser tentados a influenciar o banco central para manter a política monetária mais frouxa por mais tempo, a fim de financiar a dívida e estimular a atividade”. Mas “a única popularidade que banqueiros centrais deveriam buscar, se é que deveriam, é nos livros de história”. Por fim, “bancos centrais, aqui e no exterior, trabalharam por décadas para reduzir a inflação a níveis compatíveis com a estabilidade de preços. Não devemos arriscar esses ganhos duramente conquistados”.
Do ponto de vista intelectual, ao menos, o Warsh de hoje parece o mesmo de 2010. Em sua palestra no FMI, em abril de 2025, ele destacou não apenas a “deriva institucional” do Fed, mas também seu recente “fracasso em cumprir uma parte essencial de seu mandato legal, a estabilidade de preços”. “Também contribuiu para uma explosão dos gastos federais. O papel desproporcional do Fed e seu desempenho aquém do esperado enfraqueceram o argumento importante e legítimo a favor da independência da política monetária.”
Ele fez outras críticas, a mais contundente sendo a de que “o Fed tem sido o comprador mais importante da dívida do Tesouro dos EUA, e de outros passivos lastreados pelo governo americano, desde 2008”. Warsh afirmou: “A dominância fiscal, em que as dívidas do país constrangem os formuladores de política monetária, foi por muito tempo considerada por economistas como um possível estado final. Na minha visão, a dominância monetária —em que o banco central se torna o árbitro final da política fiscal— é o perigo mais claro e presente”. Para Warsh, portanto, dinheiro fácil é o caminho para a ruína.
O que então persuadiu Trump, que é a personificação da dominância fiscal e que vem chamando o pobre Jay Powell de “idiota” por não cortar os juros mais rapidamente, a nomear Warsh para a presidência do Fed, além, talvez, de sua boa aparência? Uma razão pode ser a simpatia de Trump pela hostilidade de Warsh ao que ele chama de extrapolação “woke” do Fed. Outra pode ser sua inclinação à desregulamentação financeira. Uma terceira é que se trata de uma escolha relativamente ortodoxa, cuja nomeação tende a acalmar mercados nervosos (como de fato ocorreu até agora).
Folha Mercado
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Mas um ponto crucial é que Warsh convenientemente concluiu que a inflação já não é uma ameaça, devido ao crescimento da produtividade impulsionado pela tecnologia. Isso pode até estar correto. Como o próprio Warsh observa, Alan Greenspan fez uma aposta semelhante nos anos 1990 sobre o impacto da internet. Ainda assim, trata-se de um salto ousado para alguém que temia a inflação em 2010, em meio a uma forte retração econômica. Se dependesse dele, a “dependência dos dados” do Fed seria substituída por um palpite. Diante dos enormes déficits e da dívida pública dos EUA, além do rápido crescimento da economia, isso seria uma grande aposta.
Como, então, a escolha de Warsh pode se desenrolar? Concordo com algumas de suas críticas ao Fed, em especial sobre a incursão em áreas que não fazem parte de suas funções centrais. Concordo também que a inflação do pós-pandemia foi, em parte, culpa do banco central: junto com outros bancos centrais, ele sequer considerou que o salto na oferta monetária em 2020 poderia levar a um aumento do nível de preços. Também concordo com Warsh que o arcabouço de política monetária retrospectivo introduzido em 2020 foi um erro conceitual e prático (além de grosseiramente mal cronometrado).
É reconfortante notar, ainda, que o Fed é uma instituição. Ele é muito mais do que seu presidente. A liderança importa enormemente. Mas Warsh não conseguiria atropelar os demais membros do Comitê Federal de Mercado Aberto, nem mesmo seu corpo técnico —ao menos no curto prazo.
Ainda assim, permanecem preocupações em duas frentes. A primeira é que Warsh possa estar disposto demais a defender aquilo que Trump quiser, mesmo que isso signifique aceitar a dominância fiscal em dose dupla. Também parece que ele pretende justificar essa postura compensando juros de curto prazo mais baixos com taxas mais altas no longo prazo, à medida que o balanço do Fed seja reduzido de forma agressiva.
Ao mesmo tempo, o Tesouro dos EUA provavelmente migrará ainda mais para o financiamento de curto prazo. Com uma curva de juros americana mais inclinada para cima, o resultado provável seria maior demanda por financiamento em dólares no curto prazo e menor demanda no longo. Sobretudo, diante da queda nas reservas bancárias e da desregulamentação financeira, os balanços do setor financeiro se tornariam mais frágeis. O incentivo para manter dólares também poderia diminuir, à medida que os juros de curto prazo caíssem e o temor inflacionário aumentasse. O resultado poderia ser outra crise financeira.
Sim, Warsh é um candidato melhor do que muitos outros da lista. Mas é uma figura confusa, talvez confusa consigo mesma. Os Estados Unidos e o mundo precisam de um presidente do Fed que enfrente Trump. Powell mostrou ser esse tipo de homem. Warsh será?
Fonte ==> Folha SP