Com base no caso do mês passado sobre o uso de IA em coluna da Folha, fiz um levantamento para ver como anda o uso da inteligência artificial em colunas do jornal. Contei com ajuda da própria IA para extração e compilação dos dados. O Claude, da Anthropic, entrou com o código, e a ferramenta Pangram foi usada para fazer a avaliação.
Os dados foram coletados no último 22 de fevereiro, com 3.732 colunas de opinião publicadas desde 1º de setembro de 2025 até aquele dia. A ideia era dar uma olhada nos quase seis meses anteriores àquela polêmica da IA.
Em 332 colunas, ou 8,9%, havia texto de IA, segundo a ferramenta. Mas isso ia de pequenos trechos até a quase totalidade dos textos. Esta última era o foco. Em 98 artigos, o texto detectado como de IA ocupava mais de 80% do conteúdo. Eles eram 2,6% do total avaliado —apenas colunas opinativas, sem colunas de notas, reportagens, análises etc.
No topo, estava mesmo Natalia Beauty. De 25 artigos, 18 apareciam com mais de 80% de conteúdo gerado por IA. Cabe lembrar que a Folha considera que a colunista se saiu bem em seus argumentos e não vê problema no modus operandi, pelo contrário.
Em segundo lugar, vinha um autor com 3 de 5 textos nos 80%. Em terceiro, uma autora tinha 11 de 20. Na sequência, havia colunas coletivas, em que cada dia escreve um autor diferente: uma tinha 8 de 19 textos com 80%, e na outra eram 16 de 57. Os mesmos cinco encabeçavam o ranking geral, que incluía porções menores de IA em outros textos.
O Pangram funciona pela identificação de padrões, porque a IA “escreve” a partir de padrões, numa estrutura que se baseia em estatística. Essa arquitetura textual (ainda) pode ser identificada porque tende a ser formulaica. Há textos, sobretudo acadêmicos, que acabam percebidos como IA pelos detectores por também soarem formulaicos.
A taxa de erro é de menos de 0,5% se desconsiderado o modelo o1 Pro, da OpenAI, que a eleva a 2%, segundo um estudo sobre o Pangram conduzido por uma pesquisadora da Universidade de Maryland (e também conclui que humanos acostumados a usar a IA generativa são a melhor ferramenta de detecção).
Lembro, ainda, que o Pangram foi o ponto de partida do trabalho, não a conclusão absoluta. Autores consultados confirmaram o uso, e editores se surpreenderam com a possibilidade, sem negá-la. Mas quem são eles?
O ideal seria revelar os nomes e fazer uma discussão aberta, mas a ausência é também um sintoma. Nenhum outro autor mostrou disposição de admitir o uso de IA como a colunista Natalia Beauty fez no mês passado. Talvez escaldados pela polêmica, foram do “ghosting” (parou de responder) à ameaça (“graves consequências e desdobramentos”). Menos pela ameaça e mais pela sensação iminente de tempestade em copo d’água, deixei os nomes para lá e me concentrei nos efeitos do levantamento. Até porque a questão central aqui é o jornal, não os autores em si.
A atitude indica que a questão não está pacificada como a Folha quer. Vale lembrar que é possível ser entusiasta da IA e questionar a adequação desse uso.
O próprio jornal tem embarcado numa confusão que associa o questionamento ao ludismo. Não é disso que se trata —e até o ludita mais raivoso reconheceria que um breve banho de IA ajudaria a melhorar títulos, legendas e textos noticiosos que vão ao ar com erros de português e de acabamento.
Mas isso não deveria invalidar a cobrança por transparência diante do uso pesado no texto, ainda o principal produto do jornal.
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A Folha afirma ter “entusiasmo crítico” com a IA. O comando do jornal já comparou a questão à troca das máquinas de escrever pelo computador e ao buscador do Google, com base na ideia de que ninguém cita termos que pesquisou para escrever um artigo. Pode ser, mas o buscador pré-IA não tinha o poder de entregar textos prontos. Quem fosse pego colando trechos catados no Google era tratado como plagiário.
O vale-tudo na IA traz outras questões. As regras dos assistentes de IA no modo grátis incluem a possibilidade de a plataforma fazer uso do prompt (a orientação do usuário) e do resultado —a menos que as configurações-padrão sejam mudadas. E o jornal oferece entusiasmo, mas não login pago, aos colunistas externos. Sobre esse ponto, a Folha afirma que “orienta a equipe a alterar configurações de privacidade de qualquer chat de IA”.
As ferramentas também têm regras, ainda que vagas, para tentar coibir atribuição humana a conteúdo gerado pela IA. O mais rígido é o popular ChatGPT, da OpenAI, segundo o qual o usuário não deve “declarar que o Resultado [Output] foi gerado por humanos quando não foi”.
A Folha afirma, em nota à ombudsman, que “é entusiasta do uso da inteligência artificial para melhorar a qualidade do serviço que presta ao leitor —como deixou claro em editorial recente— e acredita que, em um futuro não distante, a polêmica que essa tecnologia ainda provoca será vista como estéril, pura perda de tempo e energia”.
As reações recentes mostram que ainda há muita água para passar por baixo dessa ponte (talvez rumo a algum data center).
Fonte ==> Folha SP