Uma “boa pessoa” não necessariamente é um bom parceiro ou parceira romântica pra você. É importante frisar o “pra você”, pois esse movimento nos autoriza a colocar nossas necessidades emocionais, limites e desejos como base tão essencial quanto valores e caráter na construção de uma relação que, mais do que fazer sentido, nos faça sentir bem.
Em tempos de ghosting, narcisismo, imaturidade emocional e aumento de violências emocionais, financeiras e físicas, encontrar alguém que atenda ao básico —”bom caráter, princípios, maturidade, que trabalha e sustenta a própria vida”, como descreve a leitora que fez a pergunta que virou título desta coluna— se tornou quase um luxo. Um privilégio raro no mercado afetivo.
Ao transformar o básico em algo mágico, corremos o risco de tratar como “luxos” nossos sentimentos e incômodos gerados na relação, como se fôssemos “pobres meninas ricas e mimadas” que ainda não entenderam que o amor não pode ser customizado como um boneco Labubu. Será?
É claro que toda relação implica sustentar a frustração de alguns ideais e também certas faltas do outro. Mas, quando indagamos se estamos erradas por querer carinho e interesse em nossas vidas, estamos deslocando o eixo do amor para o campo do que é admirável no outro, e não do que é vivido entre os dois.
Como se bastasse que ele fosse “bom” para que a relação fosse boa. E, mais do que isso, como se o fato de ele ser “bom” fosse sinônimo de ser um bom namorado ou marido; como se “bom” e “mau” fossem características da ordem do absoluto e não conceitos aplicados a determinado tipo de postura e relação.
“Bom” não é uma qualidade universal, é uma experiência situada. Alguém pode ser ético no trabalho, gentil com amigos, admirável no mundo e, ainda assim, não te amar de uma forma que faça você se sentir bem. Apesar do crescimento da busca por terapia e profundidade no mergulho dos sentimentos, vivemos tempos de expansão ainda mais acelerada da polarização, do imediatismo e da falsa facilidade diagnóstica de perfis comportamentais em vídeos de 30s ou respostas rápidas da IA.
São novos mecanismos que alimentam uma velha cilada: o amor metonímico que sustenta nossas fantasias e apaixonamento pelo ideal do outro —e não pelo outro em si.
Lembro de uma aluna que, indignada, dizia se sentir traída por um homem vegano, religioso, que conheceu numa ação beneficente para crianças carentes. Na cabeça dela, se ele era bom com os animais, com Deus e com as crianças, obviamente seria bom com ela. E não foi. Quem a traiu não foi ele, que nunca prometeu ser o príncipe contemporâneo, mas a fantasia que ela mesma construiu.
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O perigoso é que, para não destruir a fantasia, destruímos nossa autoestima. Ao hipervalorizar os tais bons valores do outro, duvidamos cada vez mais de nós mesmos —não só do direito de nos sentirmos incomodados, mas também de nosso valor. Afinal, se ele tem ótimos valores e não valoriza seu trabalho, seus amigos, sua rotina, seus pedidos de carinho, talvez a errada seja você.
Esse é um dos pontos mais delicados da vida amorosa: quando a falta do outro começa a ser vivida como falha nossa. Quando, em vez de nomearmos o que não recebemos, passamos a revisar o que sentimos. Será que estou exagerando? Será que isso é importante mesmo? Trata-se de uma atmosfera fértil para relações abusivas e dependentes onde você silencia e questiona seus quereres por querer ser querida por alguém que pode ser muito querido com o mundo mas não é com você.
“Ele é morno na emoção: fotos nas redes, surpresas, interesse por minha rotina, nada disso existe. Estou errada em me incomodar?”, pergunta a leitora, relativizando seu vazio em nome do tal homem cheio de princípios.
Te convido a sair da lógica moralista e de certa forma competitiva do “quem está certo”. Na clínica, essa pergunta aparece o tempo todo: “tenho razão de sentir falta?”. Nas relações não existem emoções certas, existem as emoções que sentimos.
Para que o amor seja possível, mais do que uma relação entre duas pessoas com bom caráter, é preciso que sejam duas pessoas dispostas a criar um bom espaço de diálogo, acolhimento, possibilidade de pedir sem atacar e disponibilidade de flexibilizar posturas. É importante que haja também um bom espaço para a curiosidade, o interesse e o encantamento com o mundo do outro. De nada adianta alguém interessante que não é interessado. No amor, validação é tão importante quanto valores.
Que tenhamos coragem de questionar uma ética das relações contemporâneas que privilegia o estrutural e desconfia do sensível. Como se precisar de presença de qualidade e interesse fosse fragilidade e não a própria matéria do vínculo. O que sustenta uma relação não é apenas a solidez de quem o outro é no mundo, mas a forma como ele se faz presente na sua vida.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP