Durante décadas, a economia internacional foi organizada em torno de um princípio dominante: maximizar eficiência por meio da integração global. Produção, financiamento e comércio passaram a se estruturar em cadeias transnacionais que combinavam baixos custos, previsibilidade regulatória e estabilidade institucional.
Sob liderança americana no pós-Guerra, esse arranjo articulou abertura comercial, mercados financeiros profundos e instituições multilaterais capazes de reduzir incertezas. A globalização, nesse modelo, era não apenas um resultado econômico mas um pilar da ordem internacional.
Esse sistema começou a se transformar antes mesmo da pandemia, mas a mudança ganhou velocidade com a Covid-19, a Guerra da Ucrânia e o aprofundamento de conflitos internacionais. Choques sucessivos expuseram fragilidades logísticas, tecnológicas e energéticas, e a interdependência deixou de ser vista apenas como fonte de estabilidade para também ser percebida como risco.
Cadeias globais de valor, redes de pagamento, sistemas logísticos e plataformas digitais passaram a ser entendidos como potenciais instrumentos de pressão política e estratégica. A lógica da eficiência foi gradualmente subordinada à lógica da segurança.
Nesse ambiente, o critério do menor custo cede espaço à resiliência, ao alinhamento político e à autonomia estratégica. Governos priorizam o friend-shoring e políticas industriais mais ativas, mesmo à custa de perdas de eficiência. A política comercial deixa de ser neutra e passa a responder explicitamente a objetivos estratégicos, tecnológicos e de segurança nacional.
A tecnologia também passa a ocupar o centro dessa transformação. Mais do que vetor de produtividade, torna-se base material do poder econômico e político. Capacidade industrial, infraestrutura digital, controle de minerais estratégicos, energia e semicondutores passam a desempenhar papel comparável ao de ativos tradicionais de poder. Chips tornam-se insumo fundamental para inteligência artificial, defesa e economia digital, concentrando poder em cadeias produtivas altamente especializadas e geograficamente sensíveis.
A resposta americana reflete essa mudança. Controles de exportação, restrições ao acesso tecnológico e subsídios à produção doméstica buscam limitar o avanço chinês em computação de alto desempenho, inteligência artificial e aplicações militares.
Essa reconfiguração também alcança o sistema financeiro internacional. Os Estados Unidos não vão abrir mão de preservar a centralidade do dólar, reforçando sua base no poder econômico e estratégico. Ao reorganizar cadeias de minerais críticos, energia, semicondutores e infraestrutura de inteligência artificial junto a países aliados, buscam reduzir vulnerabilidades e manter sua posição no centro da economia global.
Nesse contexto, quem controla energia, minerais, chips, data centers e plataformas tecnológicas passa a influenciar preços, contratos, financiamento e fluxos de investimento. Essa nova hierarquia produtiva tende a se refletir também no sistema monetário internacional. O dólar permanecerá dominante se estiver associado ao controle dessas cadeias estratégicas e de infraestrutura crítica. A moeda passa, assim, a refletir não apenas fundamentos macroeconômicos ou estabilidade institucional mas também o poder associado ao controle de matérias-primas críticas e de tecnologias estratégicas.
O sistema internacional se afasta do modelo multilateral do pós-Guerra e se aproxima de uma lógica baseada no controle de ativos críticos e de tecnologias de ponta. A curto prazo, a fragmentação reduz ganhos de escala, eleva custos e pressiona preços. Ao mesmo tempo, amplia o papel do Estado, fortalece políticas industriais e tende a elevar o endividamento público, com potenciais efeitos sobre as taxas de juros globais.
Para o Brasil, as implicações são diretas. O país reúne reservas relevantes de minerais críticos, matriz elétrica majoritariamente renovável e elevado potencial de expansão energética. Em um mundo cada vez mais pautado pela inteligência artificial, essas vantagens ganham dimensão estratégica. A condição de exportador de commodities deixa de ser necessariamente uma limitação, pois matérias-primas, energia e insumos estratégicos tornam-se ativos centrais.
A neutralidade funcionou em um ambiente integrado, mas tende a se tornar mais difícil em um mundo organizado em blocos. À medida que cadeias produtivas, financiamento, tecnologia e segurança se entrelaçam, cresce a pressão por alinhamentos em padrões tecnológicos, investimentos e infraestrutura.
O desafio brasileiro não é escolher lados, mas construir autonomia: fortalecer instituições, garantir previsibilidade regulatória, desenvolver capacidade industrial associada aos recursos naturais, atrair investimento tecnológico e ampliar o poder de barganha.
Países capazes de articular recursos estratégicos, estabilidade institucional e estratégia de longo prazo ocuparão posições centrais nas decisões globais. O Brasil reúne condições para isso, mas precisará transformar suas vantagens materiais em um projeto econômico e estratégico consistente.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Fonte ==> Folha SP