Como os EUA estão combatendo o crime na América Latina

Como os EUA estão combatendo o crime na América Latina

Desde seu retorno à Casa Branca, em janeiro do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou o uso de ações militares, lançando mão de tecnologia e de parcerias com países na estratégia contra o crime organizado na América Latina.

A ofensiva começou com a classificação de facções como organizações terroristas, avançou para ataques militares nos mares do Caribe e do Pacífico, culminou na captura do ditador chavista Nicolás Maduro em Caracas e agora ganha um novo capítulo: a criação de um comando militar autônomo baseado em inteligência artificial (IA) para desarticular redes criminosas no continente.

Batizada de Comando de Guerra Autônoma (SAWC, na sigla em inglês), a unidade usará “plataformas autônomas, semiautônomas e não tripuladas” para neutralizar ameaças em múltiplos domínios – do fundo do mar ao espaço cibernético. O foco principal será desarticular redes narcoterroristas e de cartéis na região.

O novo comando integra o Grupo de Guerra Autônoma de Defesa (DAWG), iniciativa do Departamento de Guerra dos EUA criada especificamente para incorporar inteligência artificial e sistemas autônomos nas operações de combate – e que agora chega à América Latina como mais um braço da ofensiva de Trump contra grupos criminosos.

Veja a seguir mais cinco ações dos EUA contra facções na região.

1. Organizações criminosas e cartéis tratados como terroristas

A primeira medida de Trump contra o crime na região foi a assinatura de um decreto classificando diversos grupos criminosos latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras.

Os primeiros a receber o rótulo foram as facções criminosas Tren de Aragua, da Venezuela, Mara Salvatrucha (MS-13), que atua na América Central, e outros seis cartéis mexicanos. Posteriormente entraram na lista duas facções haitianas, Viv Ansanm e Gran Grif, e o Cartel de los Soles, que segundo os EUA é ligado à alta cúpula chavista e ao próprio regime de Maduro.

Sob essa classificação, o governo americano tornou crime federal qualquer apoio material a esses grupos, autorizou o congelamento de bens em qualquer parte do mundo e ampliou a base legal para operações militares conduzidas por forças dos Estados Unidos nas áreas onde atuam. Até então, esse tipo de classificação era aplicado principalmente contra organizações terroristas islâmicas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico, no Oriente Médio.

2. Lança do Sul: a estratégia para combater as rotas marítimas do tráfico

Em setembro do ano passado, o governo de Donald Trump lançou a Operação Southern Spear (Lança do Sul), conduzida pelo Comando Sul (Southcom) das Forças Armadas americanas, para interceptar e destruir embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico Oriental. O Southcom chegou a deslocar para a região o porta-aviões nuclear USS Gerald R. Ford (o maior do mundo), além de movimentar caças de última geração em Porto Rico e uma frota de embarcações militares e drones para monitorar rotas de tráfico.

A operação se tornou a maior presença militar dos Estados Unidos no Caribe desde a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962.

Até 19 de abril, foram realizados pelo menos 52 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico na região, com 178 “narcoterroristas” mortos. O comandante do Southcom, general Francis Donovan, disse a parlamentares americanos em março que os ataques fazem parte do plano mais amplo de pressão dos EUA sobre os grupos criminosos.

A operação, contudo, foi alvo de críticas. Em outubro de 2025, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, afirmou que os ataques americanos na região violavam “o direito internacional dos direitos humanos” e pediu o fim da operação em curso, argumentando que nenhum dos casos documentados justificava o uso letal da força.

3. A captura de Maduro

Uma das maiores ações da ofensiva dos EUA contra o crime na América Latina até agora foi a captura do ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em janeiro. Ambos estão presos nos Estados Unidos sob acusações de narcotráfico.

Segundo a organização InSight Crime, o efeito imediato da captura de Maduro sobre a segurança na América Latina foi a redução do tráfico na costa caribenha da Venezuela e o desmonte de diversos acampamentos em território venezuelano do Exército de Libertação Nacional (ELN), guerrilha colombiana de esquerda com atuação no narcotráfico.

4. Escudo das Américas: a coalizão contra o crime

Em março, Trump ampliou parcerias com 17 países da região ao lançar o chamado “Escudo das Américas”. A coalizão tem o objetivo de coordenar troca de inteligência, operações conjuntas de polícias e cooperação militar contra cartéis e facções.

Participam do “escudo” nações como Argentina, Equador, El Salvador, Chile e Honduras. Brasil, México e Colômbia, todos governados por líderes de esquerda, ficaram de fora.

Operação conjunta contra o crime no Equador

Também foi em março que os Estados Unidos e o Equador realizaram seu primeiro ataque conjunto contra um alvo terrestre ligado ao crime organizado na América Latina. Segundo autoridades dos dois países, a operação atingiu um acampamento dos Comandos de la Frontera, grupo criminoso formado por dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), acusado de controlar rotas de cocaína na fronteira entre Equador e Colômbia.

O Comando Sul dos Estados Unidos disse na ocasião que a ofensiva realizada representava “um exemplo poderoso do compromisso dos parceiros na América Latina e no Caribe para combater o narcoterrorismo”. O presidente equatoriano, Daniel Noboa, celebrou o ataque como o início de uma cooperação mais ampla no combate ao crime transnacional.

A operação, no entanto, passou a ser questionada semanas depois. Em reportagem publicada em 24 de março, o jornal The New York Times afirmou ter visitado a área bombardeada no Equador e concluiu, com base em entrevistas com o proprietário do terreno, quatro trabalhadores e moradores locais, que o alvo atingido no ataque de 6 de março seria uma fazenda de produção leiteira, e não um acampamento criminoso. O Ministério da Defesa equatoriano negou a informação da reportagem e manteve a versão oficial.

5. Ações dos EUA no México, Bolívia, Argentina e Paraguai

No México, a pressão americana contra o crime produziu resultado concreto: em 22 de fevereiro, as Forças Armadas mexicanas mataram o líder do Cartel Jalisco Nova Geração, Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, com apoio da inteligência dos EUA. El Mencho estava entre os traficantes mais procurados do mundo, com recompensa de US$ 15 milhões (R$ 75,3 milhões, na cotação mais recente) oferecida pelos EUA.

Washington também fechou alianças com os governos da Bolívia e da Argentina para conter o crime e o narcotráfico na região. La Paz, sob comando do presidente de centro-direita, Rodrigo Paz, retomou a cooperação com a agência antidrogas dos EUA (DEA), do governo Trump.

Na Argentina, o governo de Javier Milei assinou um memorando de entendimento que incorporou um representante da Polícia Federal Argentina à El Dorado Task Force, grupo de trabalho americano voltado a investigações de lavagem de dinheiro do narcotráfico. A Argentina também seguiu as designações terroristas americanas, classificando o Cartel de los Soles como organização terrorista.

No Paraguai, parlamentares ratificaram o chamado Acordo do Estatuto das Forças (SOFA, na sigla em inglês), que autoriza a presença temporária de funcionários do Departamento de Guerra dos Estados Unidos e de militares vinculados a contratos da defesa americana no país. Pelo texto, esse pessoal poderá atuar com imunidade diplomática, portar armas e ficar submetido à jurisdição penal americana durante operações em território paraguaio.

O foco declarado da cooperação entre os dois países é a região da Tríplice Fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina, apontada por Washington como rota de cocaína, armas e, segundo autoridades americanas, área de atuação do Hezbollah.

Impasse com o Brasil

Em abril do ano passado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil anunciou a ampliação da cooperação bilateral no combate ao crime organizado transnacional, com foco em inteligência, rastreamento financeiro e operações contra tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

Um ano depois, os dois governos formalizaram o lançamento do Projeto de Interdição Mútua (MIT), voltado à integração de inteligência e ações conjuntas para interceptar armas e drogas, especialmente em portos, aeroportos e na Tríplice Fronteira.

Apesar das iniciativas, persistem tensões na relação bilateral. Os EUA avaliam classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, mas a medida é vista com ressalvas pelo governo Lula.

Além disso, o recente episódio envolvendo a detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem pela imigração americana reacendeu dúvidas sobre a confiança e a continuidade da cooperação entre os dois países. Os EUA expulsaram de seu território um delegado da Polícia Federal que teria colaborado com a detenção de Ramagem, acusando-o de tentar burlar o sistema de extradição dos EUA e ampliar a perseguição política. Em retaliação, o governo Lula expulsou um adido americano do território brasileiro.

Segundo o professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, Frederico Dias, parcerias internacionais voltadas ao combate ao crime e à troca de informações técnicas costumam depender de regras claras, estabilidade política e confiança mútua entre os governos. Na avaliação dele, o atrito provocado pela detenção de Ramagem tende a desgastar esse ambiente.

Já para Cássio Eduardo Zen, professor de Direito Internacional do Centro Universitário FAPI, o episódio não deve comprometer uma relação construída ao longo de anos entre órgãos de segurança dos dois países. Para Zen, a parceria entre Brasília e Washington no âmbito da segurança opera em uma esfera mais cotidiana e pragmática, distante dos atritos políticos entre Trump e Lula.

Parceria entre EUA e Brasil ainda não mostrou resultados

Na avaliação de profissionais que atuam diretamente no setor, os acordos firmados entre Brasil e Estados Unidos na área de segurança pública ainda não geraram efeitos visíveis no combate ao crime organizado, especialmente em regiões sensíveis como a Tríplice Fronteira.

O delegado da Polícia Federal Marco Smith, que trabalha na região, afirmou que, até o momento, não é possível apontar operações ou medidas concretas que tenham surgido diretamente dessas parcerias bilaterais. À Gazeta do Povo, Smith explicou que acordos desse tipo costumam se concentrar no compartilhamento de informações estratégicas, no aprimoramento de técnicas investigativas e na capacitação de agentes públicos.

Segundo ele, por se tratar de uma cooperação técnica e permanente, os impactos mais relevantes tendem a aparecer apenas no médio e no longo prazo, à medida que os dados trocados passam a embasar investigações e que o treinamento recebido se converte em resultados operacionais.

O coronel Alex Erno Breunig, presidente da Associação dos Oficiais da Polícia Militar e dos Bombeiros Militares do Paraná (Assofepar), explicou à Gazeta do Povo que a ausência de resultados concretos da parceria EUA-Brasil na questão de segurança e combate ao crime reflete um problema estrutural mais profundo no país: o enfrentamento ao crime organizado historicamente não tem sido tratado como prioridade efetiva pelo governo brasileiro. Segundo ele, o tema “segurança pública” ganha visibilidade apenas em períodos estratégicos, como o eleitoral, mas muitas ações acabam se limitando ao discurso.



Fonte Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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