Espanha se afasta dos EUA e tenta ser ponte entre UE e China

Espanha se afasta dos EUA e tenta ser ponte entre UE e China

Em sua quarta visita a Pequim em quatro anos, o primeiro-ministro socialista da Espanha, Pedro Sánchez, voltou para casa com acordos comerciais, o reconhecimento do ditador Xi Jinping como interlocutor privilegiado entre a China e a União Europeia (UE) e uma mensagem sobre de que lado Madri escolheu ficar neste momento da história.

Aliado próximo do presidente Lula, o premiê espanhol tem adotado, nos últimos meses, uma estratégia de afastamento dos Estados Unidos, posicionando-se como um dos principais críticos do governo de Donald Trump no continente europeu.

Novo encontro com Lula na Espanha

Após se reunirem em julho de 2025 em Santiago, no Chile, onde Sánchez, Lula e outros líderes de esquerda da América Latina firmaram uma declaração conjunta contra o que chamaram de avanço da “extrema-direita” e do “autoritarismo” global, os dois líderes voltaram a se encontrar nesta sexta-feira (17) em Barcelona.

Em sua passagem pela Espanha, Lula também deve participar do evento socialista Global Progressive Mobilisation ao lado de Sánchez e dos presidentes esquerdistas da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Claudia Sheinbaum. O evento em questão é promovido pela Internacional Socialista e pelo Partido dos Socialistas Europeus.

Sánchez defende China como aliada

No encontro bilateral realizado no Grande Salão do Povo, em Pequim, o ditador Xi Jinping elogiou a Espanha como um país que age “com retidão moral” e declarou que Madri e a China estão “no lado certo da história”.

A declaração soou como endosso direto à postura de Sánchez diante da guerra no Irã e das pressões de Trump. Xi também reconheceu Sánchez como canal privilegiado de diálogo entre Pequim e Bruxelas.

O premiê espanhol abraçou o papel que lhe foi descrito pelo líder chinês e defendeu uma “relação UE-China baseada na confiança, no diálogo e na estabilidade”.

Sánchez também defendeu a ideia de “uma ordem multipolar a partir do respeito e do pragmatismo”. O premiê espanhol já havia dito anteriormente que o mundo já não gira em torno do Ocidente.

A China se tornou nos últimos anos o maior parceiro comercial da Espanha fora da União Europeia, e a Espanha é vista por Pequim como uma importante aliada dentro do bloco europeu.

De acordo com dados da Administração Geral de Alfândegas da China, o comércio bilateral entre os dois países superou os US$ 55 bilhões (cerca de R$ 275 bilhões, na cotação mais recente) em 2025, com crescimento de 9,8% em relação ao ano anterior. Além disso, empresas chinesas têm ampliado seus investimentos na Espanha em setores como baterias, energia renovável e infraestrutura, movimento que o governo espanhol vê como estratégico para impulsionar sua reindustrialização.

Durante a visita de Sánchez a Pequim, foram assinados 19 acordos bilaterais, dez deles na área econômica, incluindo protocolos para expandir exportações agrícolas espanholas ao mercado chinês, cooperação em transporte e infraestrutura e o lançamento de um Mecanismo de Diálogo Estratégico Diplomático entre os dois países.

Para Marco Aurélio da Silva, consultor em negócios internacionais e professor de Relações Internacionais no Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), Sánchez está fazendo neste momento “um movimento calculado dentro de um tabuleiro geopolítico extremamente volátil em 2026”.

À Gazeta do Povo, o analista disse que a aproximação de Madri com Pequim é “predominantemente um cálculo de pragmatismo estratégico, motivado pela necessidade de sobrevivência econômica e estabilidade diplomática”.

Sánchez veria em Trump, de acordo com o analista, “um parceiro não confiável” e, diante de um governo americano que “impõe tarifas e ignora acordos bilaterais”, busca na China um “contrapeso” para garantir mercados às exportações espanholas e atrair investimentos em setores estratégicos.

Espanha tem se afastado dos EUA e evita cumprir meta da Otan

A aproximação com a China ocorre em paralelo a um atrito de Sánchez com o governo dos Estados Unidos. A Espanha foi o único membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a votar publicamente contra a demanda de Trump para que os países da aliança destinassem 5% do Produto Interno Bruto (PIB) à defesa – posição que a Casa Branca classificou como hostil.

A meta acabou sendo aprovada, mas a Espanha é o único país da Otan que não demonstra esforços concretos para alcançar essa porcentagem de investimento, o que alimenta a percepção em Washington de que o país europeu neste momento é um aliado pouco confiável.

A tensão Espanha-EUA se agravou com a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Nas semanas seguintes ao início do conflito, Washington exigiu o uso das bases militares compartilhadas de Rota e Morón, na Espanha, para operações contra o regime islâmico. Mas Sánchez recusou a exigência de forma categórica. Em resposta, Trump chamou a Espanha de “perdedora” e ameaçou um embargo comercial contra o país.

No decorrer da guerra, que atualmente está sob cessar-fogo, o governo espanhol fez diversas críticas aos EUA e a Israel.

Analistas internacionais afirmam que os posicionamentos de Sánchez podem colocar em xeque a união dentro da Otan e atrair punições para Madri.

“A Espanha está provando diariamente que não é uma aliada confiável. Quando a poeira do conflito com o Irã baixar, a Otan vai precisar descobrir uma forma de lidar com isso, se realmente quiser manter os Estados Unidos na aliança”, afirmou Ilan Berman, vice-presidente do think tank American Foreign Policy Council.

Marco Aurélio da Silva avalia que a rota de colisão com os EUA traz riscos concretos para Madri, sendo o mais grave deles a possibilidade de isolamento dentro da Otan: o governo americano poderia colocar a Espanha “na lista negra da Casa Branca”, com possível “perda de cooperação em inteligência”.

Há ainda o risco, diz o analista, de Madri se tornar “um pária dentro da própria UE”, caso sua aproximação com Pequim seja vista pelos parceiros europeus como “uma traição à segurança atlântica”.

A Espanha, contudo, não foi o único aliado europeu alvo de críticas de Trump durante o conflito no Oriente Médio. Outros países do continente, como Reino Unido, Alemanha e França, estes dois últimos também integrantes da UE e da Otan, foram pressionados por Washington a ampliar o apoio logístico e militar durante as operações contra o regime islâmico.

Essas nações igualmente resistiram às pressões americanas e se tornaram alvo de críticas da Casa Branca, aprofundando um distanciamento entre Washington e seus aliados europeus que já vinha ocorrendo desde o início do governo Trump, crítico das políticas migratórias e das leis de moderação de conteúdo digital da União Europeia.

Sánchez tenta ser ponte para reaproximar UE e China

Diante do crescente distanciamento entre a União Europeia e os Estados Unidos, Sánchez aproveitou sua recente viagem à China para defender uma reaproximação estratégica entre Bruxelas e Pequim.

Durante a agenda no país asiático, o líder socialista espanhol buscou vender a China como um parceiro “estável” e “confiável” para os europeus, em contraste com o cenário de crescente “imprevisibilidade” por parte dos Estados Unidos. Sánchez é um dos poucos líderes europeus que vê a China como um aliado verdadeiramente confiável para a UE.

Apesar do discurso de aproximação do premiê espanhol, a União Europeia como bloco ainda enxerga a China com desconfiança. A própria Comissão Europeia, braço executivo da UE, define a relação com Pequim de forma tripartite: parceira, competidora e “rival sistêmica”. Os desequilíbrios comerciais e tensões tecnológicas entre os dois lados sustentam essa visão.

O déficit comercial da UE com a China atingiu 305,8 bilhões de euros (R$ 1,8 trilhão, na cotação mais atual) em 2024, o segundo maior da história do bloco. Líderes europeus têm cobrado publicamente a China por um reequilíbrio na relação.

Há também uma disputa comercial em curso. A UE possui tarifas em vigor contra veículos elétricos chineses produzidos fora do bloco europeu por políticas consideradas “distorcivas e geradoras de supercapacidade”.

O distanciamento entre Pequim e a UE também ocorre na questão tecnológica. A Comissão Europeia tem pressionado para tornar obrigatória a exclusão de equipamentos das chinesas Huawei e ZTE das redes de telecomunicações dos países membros, temendo operações de ciberespionagem e interferência de Pequim. Atualmente, a exclusão é opcional para os países membros do bloco europeu.

Recentemente a Alemanha, que por anos resistiu à ideia de barrar as gigantes chinesas de tecnologia das telecomunicações do país em nome dos laços comerciais com Pequim, anunciou que substituirá componentes chineses em sua rede 5G e não permitirá a presença de Pequim na futura rede 6G do país. Em fevereiro, o chanceler alemão Friedrich Merz viajou a Pequim com um discurso de recalibração comercial entre a Europa e a China, pedindo regras mais justas, transparência e fim das práticas industriais que distorcem o comércio global.

Em entrevista à AFP, Claudio Feijoo, especialista em China na Universidad Politécnica de Madrid, disse que Pequim vê a Espanha como um parceiro estrategicamente valioso neste momento para cultivar suas relações com a Europa e reaproximar os dois lados.

Para Marco Aurélio da Silva, porém, o peso de Sánchez dentro do bloco europeu é “limitado, embora não desprezível”. O analista observa que o premiê espanhol lidera um grupo de países, principalmente do sul da Europa, que temem o protecionismo e defendem o diálogo com Pequim para evitar “uma guerra comercial de duas frentes”.

Ainda assim, completa, dificilmente Sánchez conseguirá “convencer o bloco a ver a China como uma aliada plena no sentido de segurança”, mantendo a relação no campo da “parceria econômica necessária”.



Fonte Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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