Queda do dólar afeta mais preço do milho que o da soja – 24/04/2026 – Vaivém

Várias espigas de milho maduras com folhas secas expostas em fileira, em plantação de milho sob céu azul com poucas nuvens.

O dólar tem caído ante o real por conta do cenário externo. A moeda americana está mais fraca em relação às principais divisas do mundo, e isso se reflete no Brasil. Além disso, há uma entrada maior de investimentos no país, o que faz com que o dólar caia até mais do que a queda gerada pelo cenário externo.

O Brasil, apesar de tudo, ainda é um lugar que, comparado a outros países do mesmo nível, dá uma certa segurança aos investidores externos. Isso acaba atraindo esse capital mais especulativo de curto prazo.

O efeito sobre os produtos agrícolas é o de redução dos preços em reais recebido pelo produtor e de aumento para o importador. Só que a soja brasileira, como o país é o único exportador viável no momento, é a mais barata do mundo. O país é o grande fornecedor mundial do momento, diz Daniele Siqueira, analista da AgRural.

A queda do dólar pressiona o preço da oleaginosa em real, e o valor pago ao produtor fica mais baixo. Com isso, o produtor tende a segurar a comercialização e, para garantir o produto, o importador paga um prêmio extra pela soja.

Neste período do ano, a Argentina está com a colheita atrasada e só vai exportar a partir de maio e junho. Já os Estados Unidos estão em período de entressafra, e o grande importador dos americanos são os chineses. A soja americana, no entanto, paga uma taxa para entrar no mercado chinês.

Para ter uma garantia de produto, principalmente porque esse é o período de pico de exportação do Brasil, os importadores pagam mais, elevando os prêmios de exportação. “Se ele não importar de nós, vai importar de quem? E isso dá uma certa margem de alta para o produto brasileiro”, afirma Daniele. O prêmio compensa parcialmente a queda do dólar.

Em Sorriso (MT), a saca de soja, mesmo com a queda do dólar, permanece próxima de R$ 103. O mesmo ocorre em Cascavel (PR), onde a saca está entre R$ 117 e R$ 118, segundo acompanhamento da AgRural. O prêmio de exportação normalmente é o fiel da balança em relação a Chicago. É um valor em dólar, negociado todos os dias nos demais pontos de comercialização fora de Chicago. A formação do preço começa na Bolsa de Chicago, e o mercado determina um prêmio para o preço local em relação àquela Bolsa. Às vezes está acima, às vezes está abaixo. Depende da época e da situação de mercado, diz Daniele.

Quanto ao milho, não há um problema neste período do ano, uma vez que o país só vai exportar volumes maiores no segundo semestre. Há uma grande diferença, no entanto, do cenário do cereal para o da oleaginosa. O Brasil não está sozinho nesse mercado de milho e, se persistir esse cenário até o segundo semestre, o cereal brasileiro perderá competitividade. Estados Unidos e Argentina têm safras recordes, e a Ucrânia, apesar da guerra, também se mantém nesse mercado.

Na hora de o importador buscar milho mundo afora, não vai aumentar o prêmio de exportação do produto brasileiro, uma vez que poderá comprar o cereal mais barato nos Estados Unidos e em outros mercados. Portanto, o milho recebe um impacto maior do que a soja na formação do preço via paridade de exportação com a queda do dólar.

O mercado brasileiro de milho, porém, já não é balizado pela paridade de exportação como é o da soja. O setor interno tem maior peso. As usinas de etanol compram milho antecipado, coisa que o de ração animal normalmente não faz. Com isso, as usinas dão liquidez ao mercado, fazem com que os produtores vendam antecipado e oferecem preço mais alto do que o da paridade de exportação, diz Daniele.

No segundo semestre, no entanto, se continuar esse cenário de câmbio, o país poderá ter mais dificuldade na exportação do que teve no ano passado. A paridade de exportação do produto brasileiro será um valor menor do que o pago internamente, tornando o cereal brasileiro caro em relação ao dos demais mercados exportadores.

Para os Estados Unidos, o cenário de dólar em queda, em relação às demais moedas, é bom. O produto deles fica mais barato e eles tiveram uma supersafra. O preço do produto americano está mais competitivo e eles têm maiores condições de fornecimento do cereal.

As exportações brasileiras de milho no segundo semestre vão ter um desafio que não tiveram no ano passado. O Irã, principal importador brasileiro, depende de crédito, e as condições econômicas e financeiras do país foram afetadas pela guerra. Provavelmente, o Brasil terá de buscar outros mercados para o cereal, diz Daniele.

Na ponta do lápis, a paridade de exportação de soja e de milho mostra que a oleaginosa sofre menos o efeito da baixa do dólar. Em 27 de março, a soja estava cotada em US$ 11,59 por bushel em Chicago, e o prêmio era negativo em US$ 0,05 centavo por bushel no Brasil. O câmbio estava a R$ 5,24. Descontados custos de Rondonópolis (MT) a Santos (SP), a paridade de exportação da soja spot era de R$ 106,66 por saca na cidade mato-grossense.

No dia 17 deste mês, a soja subiu para US$ 11,67 por bushel em Chicago, e o prêmio no Brasil, ao invés de cair, subiu para US$ 0,29 por bushel. O câmbio recuou para R$ 4,98, e a paridade de exportação, em Rondonópolis, foi de R$ 104,77 por saca. Com esse novo cenário, os chineses, que recebiam a tonelada de soja por US$ 476 no final de março, passaram a pagar US$ 492,5 em 17 de abril.

No caso do milho, os preços recuaram em Chicago entre as duas datas, o prêmio subiu, mas a queda do dólar fez a paridade de exportação para agosto recuar para R$ 41,46 por saca em Rondonópolis, abaixo dos R$ 44,89 de 27 de março. Os dados mostram que, precisando da soja, o importador pagou mais pela oleaginosa brasileira. No caso do milho, porém, ele tem outras opções de compra.

Agtechs O mercado entrou em uma nova fase em 2025 no Brasil, com maior seletividade nos investimentos e foco crescente em soluções com aplicação prática e geração de valor no campo. Os aportes se concentram em tecnologias voltadas à eficiência operacional ao longo de toda a cadeia do agronegócio.

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Fonte ==> Folha SP

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