Teatro e exclusão social em clássico de Plínio Marcos – 14/10/2025 – Mise-en-scène

Teatro e exclusão social em clássico de Plínio Marcos - 14/10/2025 - Mise-en-scène

O motor de “Dois Perdidos numa Noite Suja” reside na exploração da exclusão social. As figuras de Tonho e Paco, muito próximas do arquétipo do pícaro, são corpos tensionados pela solidão e pela luta diária pela sobrevivência. Seus diálogos, essenciais e ritmados, expõem sem mediações o racismo, a homofobia e a misoginia naturalizados em uma margem social cujo único horizonte é a persistência no dia seguinte.

A escolha do Teatro do Incêndio, localizado no Bixiga, não é casual. O bairro, com sua história ligada ao trabalho, à imigração e à precariedade urbana, funciona como extensão física do drama, intensificando a leitura da marginalidade como herança geográfica.

A direção de Marcelo Marcus Fonseca estabelece a palavra como pilar, valorizando a capacidade do texto de Plínio Marcos de orquestrar tensões através da fala, onde a linguagem recupera sua potência no palco. Essa verbalização tensa prepara o terreno para a intervenção sonora, que atua como condutor dramático, sublinhando a fatalidade social com uma batida que anuncia o colapso.

A relação entre Tonho e Paco define-se pelo aprisionamento mútuo à condição de subtrabalhadores informais. Tonho, interpretado por André Pottes, encarna a frustração de quem internalizou a promessa meritocrática. Vindo do interior e com alguma instrução, seu fracasso é materializado pelo sapato estragado, objeto que ele culpa por impedi-lo de alcançar um “emprego de gente”.

Paco, por sua vez, representado por Fonseca, personifica o cinismo pragmático. Semianalfabeto e adaptado à vida à margem, ostenta um sapato novo, sugestivamente adquirido por meios ilícitos. Ele opera a inversão de valores: a marginalidade, e não a instrução, torna-se a via de acesso a bens de consumo.

A disputa pelo calçado vai além da necessidade física para tornar-se símbolo. O sapato novo de Paco e o estragado de Tonho articulam a falência humana diante de um poder financeiro que esmaga a consciência. É um fetiche que mede dignidade e status em um sistema que nega ambos.

O jogo de atuação constrói-se a partir dessa tensão insuportável. O trabalho corporal dos atores é preciso, utilizando objetos essenciais e gestos calculados. Essa precisão incorpora elementos brechtianos de distanciamento crítico. Em vez de uma representação emocional do conflito, a performance expõe a lógica da violência. O distanciamento força o espectador a analisar o ato final como consequência inevitável de uma falência sistêmica, deslocando o foco do indivíduo para a estrutura que produz a tragédia.

Três perguntas para…

… Marcelo Marcus Fonseca

“Dois Perdidos” continua super atual. Para você, o que, especificamente, no texto do Plínio Marcos dialoga mais fortemente com o Brasil de hoje? A peça ganhou novas camadas de significado nas últimas décadas?

Vivemos em um país em convulsão, em uma cidade e um estado violentos e opressores, onde uma polícia letal e a desumanização chega por meio do desmonte da cultura, o descaso com a educação e um projeto de embrutecimento do cidadão e da cidadã com fins eleitorais e financeiros. Como bem observava o Plínio, a política, em geral, não trabalha pela população, mas pela tutela do povo. E atualmente vivemos um ataque à cultura e à ciência no interesse de um processo de desinformação no sentido de minar a capacidade de pensar da população, principalmente aquela mais afetada pelo sistema capitalista predatório que tira o direito ao descanso e lazer. Cultura é um direito fundamental em que a saúde emocional das pessoas é privilegiada, coibindo a violência.

Plínio Marcos é uma voz muito viva contra essa autoridade que promove a pobreza e a ignorância. Que cala direitos fundamentais de liberdade conquistada pela prática do entendimento do outro, de que pessoas precisam ser assistidas e não insufladas de ódio, de cegueira, virando objeto útil nas mãos de poderosos. São Paulo é isso, desumana. E esses personagens podem estar na sua esquina, matando por notícias falsas, descontrolados, completamente loucos pela arrogância de alguns governantes.

A única saída é a Cultura, que permite perceber nuances e julgar com referências o modo de viver. A cultura tradicional popular está sendo massacrada por uma religião falsa e, dessa forma, vai-se perdendo (e resistindo) um modo de ensino e compreensão do mundo. Mário de Andrade disse: “a estética tem função social”. A obra de Plínio é popular e ao mesmo tempo erudita. Ela é democrática e, em seu diálogo enxuto, de camadas humanas que só os grandes dramaturgos da história conseguiram alcançar.

A sonoplastia é um condutor dramático que anuncia o colapso. Poderia detalhar como foi a construção dessa paisagem sonora? Ela dialoga com que gêneros ou sons urbanos específicos para criar essa sensação de fatalidade?

A criação sonora foi fruto de escuta mútua. Foi construída junto ao trabalho de atuação. Assim como o jogo de cena que nasceu do improviso total, a presença da música desde o primeiro dia ajudou na construção da “cidade” em torno dos personagens e da pensão onde vivem. Ela, em si, é um terceiro personagem e muitos sons foram gravados ou no entorno do teatro ou durante os ensaios, sendo reproduzidos como ecos das falas dos atores e servindo de estímulo ao jogo de cena daquele dia.

Foi – é – um trabalho de sensibilidade mútua. Assim como o espetáculo, a música também não foi “marcada”. Nem uma coisa nem outra, partiu de uma ideia preconcebida, um conceito, mas de um acordo de cena, onde tudo foi permitido. A musicalidade do texto guiou o trabalho de figurino a iluminação, de cenografia a música, de interpretação a adereços. No fundo, todas as respostas estavam no autor: ritmo, movimento, emoção, som.

De que maneira o espaço do teatro e a história do bairro influenciaram diretamente as suas opções de encenação? O público que vem do centro expandido, por exemplo, experimenta a peça de forma diferente?

O teatro está inserido no bairro e é influenciado pelo modo de vida de seu entorno. O Bixiga é fruto de um imenso abandono por ser a bola da vez da especulação imobiliária. A condição de moradia nas pensões do bairro são, por diversas vezes, precárias. Na montagem a pensão onde fica a entrada é uma rampa, que vai dar em um chão de terra, onde por baixo correm rios. De fato, existem no centro porões sem janelas, quartos insalubres, onde moram famílias inteiras e isso é considerado moradia.

A máscara de uma “cidade limpa” não fica no rosto do Bixiga. Não há coleta de lixo satisfatória, não há projeto para esse lixo acumulado. Falo do lixo de coleta mesmo, orgânico, não dos móveis, colchões, roupas nas calçadas. É canalhice culpar a população se nenhum projeto de educação, de conscientização, de pontos de apoio, de informação é feito pela prefeitura.

As pensões do bairro têm alta rotatividade e famílias são constantemente desalojadas. Então, quando vejo um sofá na rua, não penso que aquilo é lixo. Penso que alguém perdeu sua casa. Alguém pode estar na rua. Alguém não conseguiu pagar um teto. Se abusar, vai ser varrido de baixo de uma marquise onde se protege da chuva. É nesse lugar que Plínio nos avisou todos os dias que tudo pode estourar na nossa cara. Sendo assim, ao perpetuar essa condição social com a balela de meritocracia, o próprio governo é responsável pela criação e promoção da violência em todos os sentidos que a peça expõe.

Teatro do Incêndio – rua Treze de Maio, 48, Bela Vista, região central. Sáb., dom. e seg., 20h. Até 3/11. Duração: 90 minutos. A partir de R$ 20 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro



Fonte ==> Folha SP

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